No dia seis de agosto a Igreja celebra a festa da Transfiguração de Jesus. No Ocidente esta festa foi instituída pelo papa Calisto II no ano 1456 em memória da vitória de Belgrado sobre o Islã. Na transfiguração Jesus se manifesta aos seus três apóstolos em todo o esplendor da sua divindade. Qual foi o motivo? No mesmo capítulo (Mc 9, 31), Jesus fez o segundo anúncio da sua paixão. E por causa disso os apóstolos ficaram decepcionados. Jesus manifestou a sua divindade para encorajar e fortalecê-los no momento de sua paixão e morte.

Os apóstolos ficaram alegres e satisfeitos vendo Jesus resplandecente de luz. E por isso Pedro disse: “Jesus, é bom ficarmos aqui”.

Uma primeira reflexão.  É verdade, é bom ficar com Jesus quando a nossa vida está no monte Tabor. Mas – pergunta – temos a mesma alegria e entusiasmo quando estamos no Monte das Oliveiras, isto é, quando se aproxima a hora da nossa paixão, quando, como Jesus, sentimos uma tristeza mortal? Pedro, que no monte Tabor queria ficar ali para sempre perto de Jesus transfigurado, agora, no Monte das Oliveiras não tem o mesmo entusiasmo e alegria para ficar perto de Jesus, mas dorme e Jesus fica só.

É fácil ficar com Jesus quando em nossa vida tudo dá certo. Mas, quando vem a hora da tribulação temos a mesma alegria, coragem e fé para continuar com Jesus, e saborear o cálice amargo da paixão e não somente a luz do Tabor? Jesus nos concede a consolação para sermos fortes na hora das dificuldades, para sermos sempre fiéis a Ele quando nos chama a compartilhar o sofrimento da paixão. Só nesta fidelidade podemos dizer que amamos Jesus de verdade, e não somente as consolações de Jesus.

Uma segunda reflexão. Mateus nos conta: “O rosto de Jesus brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (17, 2). Jesus nos doou um ensaio da sua divindade. Ele apareceu resplandecente de luz. Uma transformação semelhante acontece na pessoa batizada. Com o batismo Deus Trindade toma posse de sua criatura. Esta, espiritualmente falando, resplandece pela presença deste Deus. Deus nos comunica a sua beleza e a sua luz.

Nos primeiros séculos os neófitos eram chamados de “fotoi”, isto é, “iluminados”, evidenciando assim o resplendor de uma pessoa na qual habita Deus Trindade. A transfiguração de Jesus é uma antecipação da nossa transfiguração. A consequência é que também o nosso modo de viver deve ser transformado.

Um mote latino diz: “Agere sequitur esse”, isto é: “A maneira de agir deve ser conforme ao próprio ser”. Nós cristãos temos que ser espiritualizados e transfigurados.  Também a nossa maneira de agir deve ser transfigurada. Em uma homilia na liturgia batismal o papa Leão Magno assim disse: “Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade. E já que participas da natureza divina, não volte aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Recorda-te que foste arrancado do poder das trevas e levado para a luz e o reino de Deus”. Devemos realizar uma transfiguração continua.