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Maria Santíssima: das Bodas de Caná à Crucifixão de Jesus

 

 

O primeiro milagre de Jesus na Galileia é o de Caná (cf. Jo 2,11). Caná remete à inauguração da vida pública de Jesus. O evangelista João relaciona o milagre das Bodas de Caná com a cruz. Os dois acontecimentos representam, respectivamente, o começo e o fim da manifestação de Jesus. Nos dois episódios, Maria encontra-se ao lado de Jesus, o evangelista não menciona o seu nome, chamando-a de a “mãe de Jesus” (ou “sua mãe”) e a chama desse modo por quatro vezes. Também na cruz, ela é mencionada por quatro vezes. Ficando, assim, evidente o desejo do autor de vincular a maternidade de Maria ao papel de Cristo. São dois momentos primordiais para a manifestação de Jesus.

Maria representa o antigo Israel fiel, expondo a Jesus a falta de vinho, isto é, um indicativo da salvação messiânica apontando que a velha Lei acabou. O vinho faltante é a Aliança, a antiga Lei não tem poder salvador, as talhas para a purificação encontram-se vazias. A fé de Maria ilustra a passagem da Antiga para a Nova Aliança. Maria foi quem notou a dificuldade – “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Ela coloca sua confiança em Jesus e convida os outros a fazerem o mesmo – “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).

O trânsito da Antiga para a Nova Aliança é perceptível. A fala de Maria, a mãe de Jesus, é o convite para assumir a posição do povo de Israel e possibilitar a Aliança: “Tudo o que o Senhor disser, nós o faremos” (Ex 19,8). Como representante do novo Israel, Maria convida a todos – representados nos serventes – a possibilitar a passagem da Lei ao Evangelho, ou seja, do Antigo para o Novo Israel. Maria torna-se a mediadora da Lei, assim como Moisés foi no Monte Horeb.

A passagem da água para o vinho representa a passagem do Antigo para o Novo Testamento, da Lei para o Evangelho. As talhas de pedra estão localizadas no centro da festa de casamento – também no centro da Aliança. As talhas são do mesmo material que as tábuas da lei – de pedra. Jesus transforma a água da purificação, símbolo da lei antiga, em vinho novo do Reino.

O vinho possui dois significados. Um é a era messiânica-escatológica, onde o vinho será abundante, de ótima qualidade, gratuito. Na instituição da Eucaristia, o vinho é o da Nova Aliança. Jesus tomará aquele vinho com os apóstolos apenas no Reino de Deus. O outro significado é que o vinho é a Palavra de Deus, em que o vinho é apresentado como a Torah. A Lei divina é o vinho da sabedoria. No evangelho, Jesus estabelece um paralelo entre a nova lei e o vinho novo: “Nem se põe vinho novo em odres velhos” (Mt 9,17).

E os seus discípulos creram nele” (Jo 2,11). Após o sinal da transformação da água em vinho, os discípulos creram em Jesus. Maria, assim como na anunciação, acreditou antes de todos. Maria revela sua confiança incondicional em Jesus.

Maria aparece relacionada à espera messiânica, mas também aparece relacionada ao seu pleno cumprimento. Maria apresenta a Jesus as necessidades de seu povo e apresenta aos outros a fé nele. Jesus é o esposo do novo povo de Deus; Maria aparece como a figura esponsal da Mulher, como a Virgem Israel, como a Igreja Virgem e Mãe no pacto nupcial que é a nova e eterna aliança. Com a dádiva do vinho novo e abundante, nasce o novo povo de Deus, ou seja, a comunidade escatológica alicerçada na fé, onde Maria é testemunha e modelo. As Bodas de Caná representa a continuidade e a superação realizada pelo novo povo de Deus em relação ao antigo. Maria é testemunha de fé para que esta passagem seja realizada e convida a todos a aderirem a essa mesma fé, quando ela diz: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Maria, em Caná, dá início ao caminho da fé da Igreja, indo à frente dos discípulos e guiando para Jesus Cristo a atenção dos serventes.

O episódio da mãe ao lado da cruz e a fala de Jesus a ela dirigida e ao discípulo amado possui um grande valor simbólico: em referência às Bodas de Caná, na cena da crucifixão também se encontra a “mãe de Jesus” (cf. Jo 2,1 e 19,25), denominada “mulher” (cf. Jo 2,4 e 19,26) e conforme a lembrança da “hora” (cf. Jo 2,4 e 19,27). O que aparece nas Bodas de Caná como prefigurado, na cena da crucifixão é tomado em seu cumprimento. A fala entre Jesus e sua mãe e Jesus e o discípulo amado explicita o cumprimento da obra confiada pelo Pai a Jesus.

Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe…” (Jo 19,25), o evangelista ao narrar a cena, utiliza a expressão “permanecer/estar de pé”, com isso ele pretende sublinhar o caráter espiritual dessa afirmação. Aponta a firmeza, a constância da mãe de Jesus e das outras mulheres diante daquela cena.

O evangelista, da mesma forma que nas Bodas de Caná, não denomina Maria, mas a “mãe de Jesus”, desta forma Maria identifica-se com um tipo simbólico-místico, três podem ser evidenciados: a Mãe Dolorosa – representando as mães que sofrem pelos seus filhos mortos; a Mãe Gloriosa – Maria, repleta de dor, participa da “hora” da exaltação de Jesus na cruz, porém permanece em pé, em postura soberana como uma rainha ao lado do trono real, revestida de esplendor pascal, do mesmo modo que a mulher do Apocalipse (cf. Ap 12), que mesmo sofrendo com as dores do parto está adornada com as vestes de uma rainha cósmica. E, por fim, a Mãe dos viventes – ao ser chamada de “mulher” por Jesus é a nova Eva, ladeando o novo Adão, é a mãe da nova humanidade.

Jesus, ao chamar Maria de “mulher”, como fez nas Bodas de Caná, pode referir-se à mulher mencionada em “Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça…” (Gn 3,15) e também a Jerusalém e o povo eleito, como ocorre outras vezes na Escritura. Maria simboliza o povo eleito da antiga Aliança e também o novo povo eleito, congregado pelo sacrifício pascal de Cristo.

O evangelista enfatiza a vocação de Maria como mãe de Jesus e como representante de Israel, tanto que nem menciona o seu nome. Em Jo 19,26, o evangelista insere na narração da cena o “discípulo a quem amava”, sem identificá-lo através do nome, denominando apenas de discípulo. Aqui se tem dois ícones: Maria e João, que representam respectivamente a Igreja e o discípulo de Cristo a ela confiado.

A “mãe de Jesus”, a “mulher” é a nova Eva, a mãe da nova humanidade, é a figura-tipo da Igreja-mãe, a comunidade apostólico-missionária que gera filhos para o Senhor, mediante a Palavra de Deus e os sacramentos. A “mulher” simboliza o povo novo da nova era messiânica. O “discípulo amado” identifica o seguidor, a testemunha por excelência, representa a Igreja-filha. Ao Jesus dizer “Eis teu filho” (Jo 19,26), nomeia Maria como mãe dos discípulos. “O discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,27), em sua familiaridade, em suas riquezas, seus valores.

Portanto, o discípulo amado recebeu Maria em sua residência, mas também em seu coração, em sua fé. Maria faz parte dos valores espirituais que Jesus deu aos seus discípulos, tais como o Pai, o Espírito Santo, a Eucaristia, entre outros. Maria está inserida na identidade cristã, o seu significado ultrapassa uma figura individual. Maria Santíssima, Mãe das Dores, assim como o discípulo amado, que possamos levá-la para nossa casa, nosso coração, nossa vida como grande presente que Jesus nos ofereceu.

Pe. Luiz Rogério Gemi

Vigário Paroquial da Catedral Santo Antônio

Fonte: BIO - Boletim Informativo de Osasco