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Pastoral Carcerária: promoção da dignidade humana e presença misericordiosa de Deus

Foto: A12.com

 

A Pastoral Carcerária tem como objetivo principal a promoção da dignidade humana por meio da presença da Igreja nos cárceres através das equipes de pastoral. Para falar desta missão tão importante em nossa diocese, Rezilda Bezarria de Araújo, que é membro executivo do Setor Pastorais Sociais, falou à equipe de redação do BIO um pouco sobre o cotidiano do trabalho realizado pelos voluntários.

 

BIO:  No que consiste o trabalho da Pastoral Carcerária?

Rezilda: Evangelizar é anunciar uma prática de um amor que se origina em Jesus Cristo e transcende a eclesialidade. Esta prática de amor e bênção de Deus deve ser incondicionalmente vivenciada em relação a tudo o que existe: à vida, à pessoa humana, às comunidades, bem como a sociedade, independentemente de credo, gênero, raça, idade grupos, classes, categorias sociais. Evangelizar é educar para a cidadania, de modo que os presos, egressos, familiares e funcionários que partilham conosco seus anseios de justiça e direito, possam encontrar estímulo, ânimo e força para refazerem suas vidas. Colocamo-nos no meio dos detentos como seus irmãos e irmãs, deixando-nos sensibilizar por sua situação individual, familiar, comunitária, social e religiosa. A Pastoral Carcerária também realiza doações de material de higiene pessoal, envelopes, selos, papel de carta, cadeira de rodas, muletas e outros, para os presos sem famílias e procura ser um canal de interlocução entre a população carcerária e familiares, por um lado, e o Estado e a sociedade por outro.

 

BIO:       Como se organiza a pastoral na diocese? Qual o número atual de voluntários?

Rezilda: A pastoral se organiza da seguinte maneira: um padre assessor, que anima a equipe diocesana para que aconteça as visitas em todas a unidades carcerárias da diocese e um coordenador. Temos reuniões todo primeiro sábado do mês e formação permanente a cada dois meses nos sub-regionais SPI e SPII da CNBB.  A população carcerária da Capital e da Grande São Paulo, muitas vezes, fica circulando nas unidades carcerárias das Dioceses dos Sub-Regionais, daí a necessidade de um trabalho e formação em conjunto. Hoje contamos com doze agentes de pastoral na diocese, além de duas advogadas voluntárias para atendimento aos familiares dos presos e presas.

 

BIO:       Quais são as unidades carcerárias assistidas pela Diocese de Osasco?

Rezilda: As unidades carcerárias são: dois Centro de Detenção Provisória – CDP I e CDP II de Osasco – KM 20 Raposo Tavares, um Centro de Progressão Penitenciária Feminina Butantã – CPPF – KM 19,5 Raposo Tavares (Penitenciária Semi-aberta Feminina), uma Penitenciária Regime Fechado  masculina em Mairinque – Bairro Cristal, e também as Cadeias Públicas nas cidades da Diocese.

 

BIO:       Que tipo de atividades religiosas são promovidas em favor da evangelização dos detentos?

Rezilda: A principal atividade de evangelização é a visita: Escuta, Palavra e Oração. Partilhando a Palavra, conteúdos religiosos e de cidadania, mediante a busca de contato com Deus, consigo mesmo e com o próximo, no amor construtivo através da escuta, da partilha, do diálogo, da reflexão da pregação e de outras formas e meios de evangelização e educação. É difícil de acreditar para quem está de fora, mas na visita da Pastoral Carcerária o clima entre a população carcerária muda.  Daí a cobrança da presença da pastoral.  Oração nos pequenos grupos, Celebração da Palavra, Missas, reflexão e partilha da Palavra e grupo de estudo Iniciação Cristã no Cárcere com o subsídio da Pastoral Carcerária Estadual.

 

BIO:       O Papa Francisco incentiva durante este Ano Santo que se redescubra a riqueza contida nas obras de misericórdia. Visitar os presos é uma das obras de misericórdia! Que bem tiramos desta prática, tanto os presidiários como as pessoas que os assistem?

Rezilda: Uma das propostas desafiadoras para nós, Pastoral Carcerária, é justamente que as pessoas comprometidas nas comunidades, em outras pastorais, movimentos e associações façam o possível para visitar o cárcere, mas há outras realidades em que podemos colocar em prática, como, por exemplo, cuidar e trabalhar com a família dos encarcerados, porque eles também acabam ficando encarcerados – as mulheres, os filhos e os parentes – já que vivem esse drama. Na medida do possível, é bom que as pessoas consigam visitar os cárceres, entrar neste ambiente e ver que é muito diferente do que a imprensa muitas vezes apresenta. Lá estão homens e mulheres, jovens, negros em sua maioria, que são frutos da nossa sociedade do descartável, que quer eliminar e, sobretudo, quer o lucro, mas não olha para a pessoa. Portanto, esta obra de misericórdia, visitar os presos, é este nosso olhar novo e desafiador, que coloca em questão a nossa fidelidade de agentes evangelizadores, buscando uma restauração integral, de toda a pessoa humana como valor supremo.

 

BIO:    De que maneira a Pastoral Carcerária pretende proporcionar aos presos, a partir da sua realidade, a vivência do Ano Santo da Misericórdia?

Rezilda: Queremos ser com a nossa presença no meio dos presos e presas, a presença misericordiosa de Deus. Isso é a primeira coisa. Ainda não foi definido um programa, mas há várias sugestões que cada diocese vai adequar a sua realidade. Em nossa diocese, uma das propostas é que se celebre missa em todas as unidades Carcerárias. Que nenhum preso ou presa perca esta oportunidade de conhecer e sentir que Deus é Misericordioso. Está sendo elaborado por um grupo, um folder sobre o Ano Santo da Misericórdia para ser entregue em todas as unidades, para todas pessoas, presos, familiares e funcionários. Em 6 de novembro será celebrado o Jubileu dos Presos. Estamos pensando, se fazemos um evento diocesano ou um evento maior, a nível Estadual ou até Nacional para a população Carcerária realmente sentir que Deus é misericordioso.  Aguardem!!

 

BIO:       Você poderia nos deixar um testemunho de alguma experiência vivida durante estes anos de trabalho, pelo qual você teve a certeza de que, sim, vale a pena lutar pelo direito e valorização do ser humano?

Rezilda: São muitos quando falamos dos direitos e valorização do ser humano. Jovens que entregamos de volta aos seus lares e que hoje são pais de famílias e que estudam e trabalham, idosos que colocamos em albergues e depois foram entregues as famílias, moradores de rua que foram a Júri e foram libertados e o Sr. Laercio que morreu com dignidade. Me lembro de um caso em especial. Alguns anos atrás foi feito um projeto para fundo da Campanha da Fraternidade, que se  chamava Leitura Ativa  para as presas. Este projeto teve a duração de dois anos e entre as participantes, me aproximei mais de uma presa, que podemos chamar pelo nome fictício de Angela. Ela chegou a ganhar um concurso de literatura. Foi condenada há mais de 10 anos, mas já estava na porta de saída, pois estava no semi-aberto. Era cheia  de tatuagens horrorosas, tinha uma linguagem não comum para nós. Encrenqueira no sistema, sempre estava na ala de castigo. Era o terror da população carcerária e dos funcionários, que tinham que conviver com esta situação até ela pagar a pena. Ela entrou desconfiada no projeto, faltava muito. Aos poucos, Angela começou a gostar de leitura. Depois deste, ela passou para o projeto Economia Doméstica. Não falava da vida particular, porém um dia me contou que não tinha para onde ir na “saidinha” –  as saídas de final de ano e outras (são cinco por ano) –  porque não era mais aceita no convívio familiar. Com isso crescia a revolta. Conseguimos junto com a Diretoria da Unidade uma autorização para que participasse do Dia Internacional da Mulher, um evento no salão de Atos da Cúria Diocesana, onde falaria da experiência de presidiária. Foi um sucesso! Quando saiu a liberdade, pediu para a administração me ligar para se despedir. Não tenho palavras para descrever a transformação da Angela, na linguagem, no vestir, nas atitudes e agora voltava para a família, que estava feliz com sua volta. Não podemos mudar o mundo, mas se conseguirmos mudar a vida de um preso ou presa, para este, o mundo mudou.

Fonte: Redação BIO