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Diocese de Osasco

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Artigos, Clero, Diocesanas › 10/10/2014

Objeto de louvor na Terra

‘Vinde! Reconstruamos as muralhas de Jerusalém e nãos seremos mais objeto de insulto’

“Sobre teus muros, Jerusalém, postei guardas; eles não se calarão nem de dia, de nem de noite. Para vós, que vos lembrais de Yahweh, não há descanso” (Is 62,6). A palavra aqui traduzida por “guardas” é o vocábulo hebraico mishmar, que designa o “vigia, guarda, posto, confinamento, prisão, custódia, divisão. (…) Significa o ‘guarda militar’ de uma cidade” (Vine).

E comenta São Tomás, “sobre os muros, não se calarão: fala segundo a semelhança do vigia que guarda a cidade: por metáfora, designa a diligência dos governantes, que governam o povo, ou dos pregadores na Igreja. Em Ap 4,8 se diz: sem descanso, clamam: santo, santo, santo. Estes são aqueles dos quais se diz Vós, que vos lembrais do Senhor. Aqui estão aqueles que induzem os outros a uma oração de súplica semelhante a esta. Não se calarão, na oração a Ele, a Deus. Em 1Ts 5,16-17 se diz: Alegrai-vos sempre, orai sem cessar” (Comentário ao Profeta Isaías).

O discípulo de Cristo, portanto, não é alguém que se alheia da realidade, antes, é um servo sempre atento a gerar na terra os propósitos do céu, consciente de que “o céu é o céu de Yahweh, mas a terra, ele a deu para os filhos de Adão” (Sl 115,16 [113,24]). A este respeito, ordena São Paulo: “Parákalo, exorto, admoesto, insto, encorajo, impulsiono, impilo, estimulo, recomendo-vos, pois, antes de tudo, que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens, pelos reis e todos os que detêm a autoridade, a fim de que levemos uma vida calma e serena, com toda piedade e dignidade” (1Tm 2,1-2).

O que se requer do cristão é a capacidade de ser custódio de sua terra, ocupando a posição de um vigia, que fala com Deus sobre sua nação e fala à sua nação sobre Deus; deve ser alguém que se põe no lugar de intercessão, trafegando num contínuo ir e vir entre a presença divina e o mundo em que habita.

Vivemos tempos difíceis. No Brasil, estamos num momento de impasse. Faz pena olhar o povo e perceber que tantas pessoas se desinteressam pelo andar de nossa pátria, enquanto o seu quadro desolador nos deveria confrontar, pois somos chamados a não nos calarmos “até que sua justiça raie como um clarão e a sua salvação arda como uma tocha” (Is 62,1).

Há alguns dias, confidenciava a um grupo de pessoas o quanto nosso olhar pastoral é exposto a nuances tão dificilmente perceptíveis a partir de outras perspectivas… Privilégio mortificante, mas prenhe de um realismo insofismável! Não falo apenas das ondas de violência urbana que geram surtos de pânico em tantas pessoas, nem tampouco do alastramento da obscenidade que provoca crônicos complexos e manias pitorescas; falo sobretudo do esvaziamento das mentes, da ofuscação das sensibilidades, do esfriamento dos corações, da apatia das consciências, do anti-evangelho cultivado à valer pelas amplificações desmensuradas dos gritos histéricos de uma minoria de desequilibrados, ostentados pelos presumidos vanguardistas dirigentes da sociedade.

O desmantelo das famílias, a erosão educativa, o extermínio da vida nascente, o desrespeito à liberdade, o boicote da democracia, e ainda tantas outras mazelas não numeradas são insuficientes para chamar a atenção daqueles que se deveriam entender como “guardas”. É lamentável como os fieis de hoje vivem focados em seus próprios problemas íntimos, agigantados dramaticamente como se fossem grandes conflitos da humanidade, enquanto os verdadeiros dramas são deixados de lado, anestesiando-se a consciência pela atenção desproporcional às próprias dores, egoístas.

A categórica bem-aventurança dos “que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6) é chutada para baixo do tapete, e o coração do vigia deixa de vigiar, torna-se insensível, inapetente, morto pela inanição da caridade.

Animado por um ardente zelo de amor por seu povo, o discípulo sabe transformar em súplica cada desencontro do bem nos acidentes da vida. Resistindo aos fatalismos covardes, não desiste de esperar ativamente, enquanto tece com as mãos aquilo que seus olhos ainda não podem ver, “semeia entre preces vertidas em lágrimas como quem sabe que colherá com alegria entre os cânticos da fé” (Cf. Sl 126[125],5).

Com vocação profética, sente como próprias as dores de seu povo. “Já não te chamarão ‘Abandonada’, nem chamarão à tua terra ‘Desolação’” (Is 62,4). Antes, fugindo de toda passividade, põe mãos à obra e sabe fazer sua parte na reconstrução das suas ruínas. “Estais vendo a situação miserável em que estamos: Jerusalém é só ruínas, suas portas foram devoradas pelo fogo. Vinde! Reconstruamos as muralhas de Jerusalém e nãos seremos mais objeto de insulto” (Ne 3,17). Reconstruir muralhas, vigiar, reparar com o fermento da caridade o vácuo deixado pela impiedade exige de cada um o esforço quotidiano de não entregar os pontos e refazer o caminho perdido, nunca abrindo mão do direito de lutar.

Amamos nosso país. Sofremos com suas perdas, mesmo com as menos significativas, como aquelas dos jogos. Queremos que nossa nação seja a primeira em tudo e nos frustramos quando não obtemos os resultados que almejamos como povo. Por isso, não podemos depor as armas. Como Igreja, precisamos nos convencer de que é tempo de expansão, de mostrar a todos a alegria do Evangelho, de contagiar cada rincão deste país com a boa-nova de que “a Redenção se aproxima” (Lc 21,28), e tudo isso sem descanso.

O texto de Isaías nos convida a perturbarmos o próprio Deus até que esta visão se estabeleça. “Não lhe concedais descanso enquanto ele não estabelecer firmemente Jerusalém” (Is 62,7). Tal é a natureza de nossa inquietação espiritual! Não podemos esmorecer em nossa insistência, em uma atitude dócil, amorosa e divinamente teimosa diante de Deus.

Precisamos rezar por nosso país, temos de lutar por ele, não somente escolhendo com responsabilidade aqueles que nos representarão e acompanhando seus atos para lhes conferir a coerência, mas também para nos pormos em marcha a fim de protegermos a nós mesmos e nossas famílias. Urge orarmos, e intensamente, penitentemente, mas, se for autêntica, esta oração nos levará ao desassombro da militância. “Invocamos então nosso Deus e, para proteger a cidade, estabelecemos contra eles um policiamento dia e noite” (Ne 4,3).

No amor não cabe sonolência. E, aqui, mais do que nunca, precisamos nos despertar. O cristão não cochila, não fraqueja enquanto o querer de Deus não se realiza concretamente. Nem nós dormiremos, pois fomos postos por Ele mesmo como vigilantes sobre as muralhas, até que esta terra supere suas vergonhas, seja aplainada na medida da Palavra, seja coberta de alegria e prospere, em todas as suas famílias. Não podemos recuar, antes, avançaremos, até que o Brasil seja posto como “objeto de louvor na terra” (Is 62,7).

 

Pe. Dr. José Eduardo de Oliveira e Silva

Diocese de Osasco

Doutor em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade de Santa Cruz

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