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Ano Mariano: Maria Santíssima, a arca da nova e eterna aliança

Foto: Imagem Internet

 

Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor venha me visitar? (Lc 1,43)

A Virgem Maria, após receber a anunciação do anjo que seria a Mãe de Deus, vai até a casa de sua parenta Isabel (Lc 1,39-56). A narrativa possui semelhanças com o transporte da Arca da Aliança para Jerusalém (cf. 2Sm 6,2-16), o local é o mesmo, a região de Judá (cf. 2Sm 6,1-2 e Lc 1,39). Nos dois relatos há manifestações de alegria, tais como: Davi “dançava diante do Senhor” (2Sm 6,5), “transportou a arca com alegria” (2Sm 6,12), “dançava…saltando e dançando” (2Sm 6,14.16), “o menino, no seio de Isabel, estremeceu de alegria” (Lc 1,41.44). A alegria é expressa através de aclamações: “Davi e toda a casa de Israel fizeram assim a Arca do Senhor subir, aclamando e soando a trombeta” (2Sm 6,15), “…Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com um grande grito exclamou…” (Lc 1,41-42). “A Arca do Senhor ficou três meses na casa de Obed-Edom de Gat, e o Senhor abençoou Obed-Edom e a toda a sua casa.” (2Sm 6,11), “…Isabel ficou repleta do Espírito Santo” (Lc 1,41), através da comparação dos dois episódios, é possível afirmar que a arca, assim como Maria é motivo de benção para as famílias que as acolhe.

Davi afirmou: “Como virá a Arca do Senhor para ficar na minha casa?” (2Sm 6,9) e Isabel disse: “Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?” (Lc 1,43), nesses dois comparativos, percebe-se o espanto, admiração da parte daqueles que recebem (Davi e Isabel) diante da arca e de Maria. Assim como a arca ficou três meses na casa de Obed-Edom (cf. 2Sm 6,11), Maria permaneceu aproximadamente três meses na casa de Isabel (cf. Lc 1,56). Através do paralelo entre o transporte da Arca da Aliança e a visita de Maria a Isabel, é possível afirmar que Maria é a Arca da Nova Aliança, trata-se do local da presença de Deus. Desta forma, a presença de Maria é motivo de alegria, de bênçãos, porque traz consigo o Senhor.

Durante a anunciação, o anjo comunica à Maria a gravidez de Isabel. O evangelista Lucas afirma a imagem de Maria como a serva obediente de Deus. Ela apressadamente responde dirigindo-se a casa de Zacarias saudar sua parenta. Quando Isabel ouve a saudação de Maria, o menino estremece em seu ventre, e ela fica repleta do Espírito Santo. Isabel saúda Maria como a “mãe do meu Senhor” (Lc 1,43). Isabel exalta Maria, e Maria louva a Deus no hino do Magnificat (Lc 1,46-55). Isabel identifica em Maria a nova Eva, a mulher que anuncia a vinda do novo Adão, o Salvador da humanidade. A fé torna possível a realização das promessas, sem a fé de Maria não haveria a salvação. A expressão “a mãe do meu Senhor” (Lc 1,43) é uma profissão de fé na Maternidade Divina da Virgem Maria, pois o Senhor é um título reservado a Deus. Desta forma, Isabel destaca o caráter divino do Messias.

 

“A Mãe do Senhor é ícone perfeito da fé, como dirá Santa Isabel

‘Feliz de ti que acreditaste’ (Lc 1,45).” – Papa Francisco

Em Lc 1,46-55 é apresentado o Magnificat, o canto da libertação messiânica. Trata-se do texto mais longo proclamado pelos lábios de Maria. Ela fala de Deus e das maravilhas que Ele fez em favor dela e do seu povo. Esse hino é uma síntese da espiritualidade cristã sob uma visão mariológica. No Antigo Testamento encontramos cânticos proclamados por importantes personagens, com o intuito de relacionar sentimentos de louvor e gratidão pela manifestação de Deus em uma situação particular. Semelhante ao Magnificat, observa-se o cântico de Ana em 1Sm 2,1-10, em que a personagem dirige um louvor poético a Deus em ação de graças pelo dom da maternidade a uma mulher estéril.

A Estrutura do Magnificat pode ser dividida em três partes: a primeira trata da ação divina em Maria, a segunda da ação divina na humanidade e a terceira parte da ação divina no povo de Israel. Na primeira parte, Lc 1,46-49, o cântico vibrante e alegre brota da experiência de Deus. Maria declara-se humilde, pois depende de um ser maior. Declara-se serva, pois está totalmente a serviço de Deus. Maria afirma: “O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor” (Lc 1,49). Maria é inserida na história da salvação do seu povo, pois o Senhor havia feitos grandes coisas em favor do mesmo e da mesma forma faz também na sua vida. A expressão utilizada “grandes coisas” refere-se à ação de Deus em libertar Israel do cativeiro, no Antigo Testamento. Maria identifica que a “grande coisa” realizada na sua vida é obra do mesmo autor que a fez conceber virginalmente (cf. Lc 1,35) e a quem nada é impossível (cf. Lc 1,37). Deus realizara muitas libertações na história de seu povo, porém a maior das libertações virá através daquele que Maria traz em seu ventre.

Na segunda parte, Lc 1,50-53, o canto adquire formas enérgicas. “Seu amor para sempre se estende” (Lc 1,50), amor de solidariedade, de libertação, de compaixão, entranhado, visceral. O canto nos afirma que o amor está voltado para aqueles que temem o Senhor. Maria, ao proclamar o Magnificat, declarada “Feliz a que acreditou” (Lc 1,45), o evangelista Lucas torna-a porta voz da inversão, isto é, da parte essencial do conteúdo do Evangelho. O evangelista afirma que Maria é considerada Bem Aventurada não por ser fisicamente a mãe de Jesus, mas por sua fé. Sendo assim, Maria é aquela que acreditou no cumprimento das promessas descritas na anunciação. Deste modo, a fé de Maria torna-a participante ativa do processo de libertação de Israel através da ação de seu Filho Jesus.

 

Maria é a primeira discípula cristã por aceitar a Palavra de Deus sobre Jesus e com o Magnificat    é reforçado o seu discipulado por ela proclamar antecipadamente o Evangelho.

Maria torna-se a porta voz dos discípulos cristãos, representando os fiéis de Israel, representa a piedade dos oprimidos, pobres, humildes, aflitos, órfãos, viúvas. Em contraste a estes estavam aqueles que não se sentiam necessitados da misericórdia de Deus. Em Maria, está implícita a predileção de Jesus pelos últimos. É a Bem Aventurada, porque acreditou. Primeiramente nela, realiza-se a novidade do Evangelho. No íntimo do Magnificat se opõem a sorte diversa dos orgulhosos, poderosos, ricos com a dos humildes e famintos. Os primeiros são dispersados, depostos e despedidos de mãos vazias, enquanto os outros são exaltados e saciados (cf. Lc 1,51-53).

A terceira parte, Lc 1,54-55, relata a ação de Deus em Israel. Deus havia feito uma promessa a Abraão: terra, descendência e benção universal (cf. Gn 12,2). As promessas de Deus à Abraão são estendidas às gerações futuras: “Estenderei minha aliança entre mim e ti, e, depois de ti, às gerações que descenderão de ti” (Gn 17,7). No canto do Magnificat, Maria retoma as promessas feitas à Abraão.

Ah! Minha Rainha! Vós noutro tempo vos destes tanta pressa em visitar e santificar em vossa visita a casa de Isabel. Visitai depressa a pobre casa da minha alma (Santo Afonso de Ligório).

 

Pe. Luiz Rogério Gemi
Vigário Paroquial da Catedral Santo Antônio

 

Fonte: BIO - Boletim Informativo de Osasco