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Pastoral Familiar: uma Igreja de famílias

Foto: Pascom Diocesana

O tema da Família já foi abordado em nosso BIO, e deve ter sido motivo de estudo e consideração por parte dos Conselhos das Regiões e Paróquias. Mas é preciso voltar a ele, já tendo em mãos as conclusões aprovadas pelos Padres Sinodais. A conclusão, propriamente, se dará quando o Papa Francisco se pronunciar de forma magisterial sobre o assunto, conforme lhe foi solicitado. Mas o Papa já permitiu que fossem levadas em conta as propostas do Sínodo, uma vez que as fez publicar indicando, com toda a transparência, até mesmo o resultado das votações de cada parágrafo do texto. Sem dúvida o que vimos foi uma grandíssima convergência doutrinal e pastoral, além da confiança do Papa de que, tratando sem receio e com grande liberdade as questões, mesmo as mais complexas, ouvindo uns aos outros com atenção e humildade, é possível mesmo escutar a voz límpida do Espírito Santo.

Convergência e fidelidade ao Evangelho

Não era exatamente isso que queriam os defensores acirrados desta ou aquela ideia. A imprensa queria que houvesse divisão, novidades doutrinárias, disputa entre grupos rivais, espetáculo. Tanto que ao ser publicado o resultado do trabalho sinodal, alguns veículos de comunicação o julgaram fraco e sem interesse. Se não foi como esperavam, nem merece notícia. Essa é mais uma razão para que nós tomemos nas mãos cada proposta, conforme divulgado pelos meios da Igreja, para fazermos crescer, nas nossas comunidades, o amor e a atenção para com a Família.

Acompanhando a vida pastoral em todo o Brasil, através da Comissão da CNBB para a Vida e Família, não tenho dúvida de que a Pastoral Familiar se abriu e se ramificou por toda parte. Dioceses inteiras que antes não tinham Pastoral Familiar, ou achavam que bastaria ter um ou outro movimento de casais, começaram a entender o propósito dessa Pastoral. Há inúmeras dioceses programando encontros do clero, assembleias de leigos, congressos regionais ou diocesanos e programas de formação permanente sobre o tema do Sínodo. Nós, em Osasco, teremos a formação do Clero, ainda neste mês de novembro, com assessoria do Padre Dr. Frei Antônio Moser, um dos peritos do Sínodo, sobre o assunto Família.

O que podemos esperar?

Teremos em dezembro nosso Congresso Diocesano das Famílias, no Ginásio de Esportes José Liberati, em Osasco. O tema será ainda um eco do grande Encontro Mundial de Filadelfia: “O Amor é nossa Missão”, e o lema abre um horizonte novo, em sintonia com o Ano Jubilar: “Família Diocesana, Espaço da Misericórdia”. Peço que, para este evento, todas as Paróquias e Movimentos ligados à Família deverão escolher com critério os representantes congressistas. Nenhuma paróquia pode ter pretexto de se ausentar. Até porque o próximo Plano Diocesano de Ação Evangelizadora, ainda não totalmente pronto, já deu mostras de que a prioridade Familia estará em destaque. São sinais de esperança. Animado por essas sendas abertas, proponho alguns pontos para refletirmos juntos, o clero e os Conselhos Paroquiais, os Movimentos familiares, agentes das diversas pastorais e todos os fiéis de nossas comunidades:

  1. Igreja de Famílias –  Creio que a grande proposta que resume os 94 parágrafos do texto sinodal pode ser expressa assim: formemos uma Igreja de famílias. O que isso significa na prática? Há uma identidade profunda entre o que é a Igreja, a família de Cristo, e a Família, igreja doméstica. Essa identidade se mostra tanto nos aspectos positivos (convivência, cuidado mútuo, partilha, celebrações da vida) como também nos negativos (grupos fechados, isolamentos, autoritarismos, descasos). Temos que tratar das feridas da Igreja como das famílias. A pergunta a fazer: quais são esses ferimentos, por onde começar a trata-los?
  2. Movimentos – Os movimentos fazem efetivamente parte da Pastoral Familiar. Mas a Pastoral Familiar nem sempre encontra uma porta de entrada junto aos movimentos. A pergunta é: o que podem os movimentos fazer para fora de si mesmos, junto com outros movimentos de Igreja, em favor dos diversos segmentos da vida familiar: crianças, idosos, enfermos, sem teto, sem doutrina, sem paz?
  3. Rezar em Família – Rezar já foi uma prática mais constante e fiel das famílias no passado. Depois foi desaparecendo essa prática, ficando restrita a grupos de oração ou até silenciosa escuta da oração feita na tv ou no rádio. Visitar, oferecer-se para rezar com a família visitada, encontrar tempos e modos para retornar com fidelidade à prática da oração, isso faz diferença para muitas famílias. Fazê-lo de forma organizada, passando e repassando por todas as famílias, renova a comunidade, muda a convivência, dá frutos de justiça e de paz.
  4. O Ano da Misericórdia – O Jubileu é uma oportunidade imensamente grande de ação familiar. Fazer a experiência da misericórdia de Deus em nossas vidas é o que nos alimenta. Compartilhar, levar essa experiência de misericórdia, de perdão, de reconciliação, de esperança, junto aos lares em conflito, deve ser a nossa permanente missão. Peregrinações, visitas à Porta Santa, Vigílias e Mutirões de ações missionárias, obras de misericórdia corporais e espirituais, tudo isso combina com uma igreja de Famílias.
  5. Retiros e convivências – UmaIgreja de Famílias tem sempre boas iniciativas de convivência, de integração para jovens, idosos, crianças, casais. As comunidades sabem preparar festas, almoços e reuniões, quase sempre com objetivo de garantir o sustento da comunidade. Mas também se pode fazer muita coisa, sem finalidade de arrecadação, mais pela convivência e encontro. Também as ocasiões de formação devem ser incentivadas e programadas, sempre levando em conta a família toda, e não apenas casais ou só um segmento.
  6. Liturgia – Nosso encontro semanal com Cristo eucarístico reforça a vida familiar e é remédio para muitas doenças da convivência. O Papa Francisco em sua catequese semanal sobre a família lembrou quantas questões sérias e difíceis se resolvem quando sentados à mesa, em família. A mesa da eucaristia é também assim. Um incentivo para que as famílias participem da celebração dominical, sempre com alguma valorização especial da presença das famílias, com alguma apresentação das crianças, uma mensagem ponderada e direcionada às questões familiares, sempre atrairá as famílias para se juntar à comunidade.
  7. Políticas Públicas – Uma Igreja de Famílias estará, por certo, em atenção permanente para com os movimentos da sociedade, em diálogo com os poderes públicos, com os conselhos municipais. A boa política que podemos fazer, enquanto Igreja, não é, certamente, a opção por partidos e grupos de interesse, mas por apoio a iniciativas boas, venham de onde vierem. Sugerir medidas, dialogar com os responsáveis, e até opor-se às ações que ferem a Família, faz parte sim da pregação do Evangelho. Na ação junto à sociedade têm força as Associações de Famílias, o que lhes confere peso e audiência, nos meios de comunicação e nos espaços públicos.
  8. A coordenação da Pastoral Familiar – Uma equipe de coordenação deve estar bem integrada com os diversos segmentos da comunidade. Só assim haverá uma Igreja de Famílias. Eu quase arrisco dizer que a coordenação da Pastoral Familiar de uma Paróquia é o seu Conselho Pastoral, junto com seu pároco. Esse conselho não tem a função de organizar toda a ação evangelizadora paroquial, segundo as diretrizes da Diocese? Pois então, mesmo que não coincida a Pastoral e esse Conselho, devem estar, sim, em plena sintonia. Assim a Igreja se torna uma grande Pastoral Familiar. E a Pastoral familiar se torna Igreja, toda ela voltada para uma proximidade maior com as famílias e seus desafios.

Temos muito caminho pela frente, neste ano da Misericórdia, com o nosso 8º Plano Diocesano que privilegia a Família, com a palavra viva do Papa Francisco e seus gestos de profeta da Família.

 

Dom João Bosco, OFM

Bispo de Osasco – SP