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Os jovens e seu desejo de ter uma família

O mundo se prepara para assistir novamente o grande espetáculo da Jornada Mundial da Juventude, o encontro do Papa com os jovens do mundo inteiro. No último desses encontros, que se deu em 2013, no Rio de Janeiro, mais de quatro milhões  de jovens se reuniram na praia de Copacabana, ao redor do Papa Francisco, que ainda tinha poucos meses de pontificado, para ouvir a sua palavra. E ouviram Francisco dizer: “Ide, sem medo, evangelizar!”. Desta vez vai ser na Polônia, na cidade de Cracóvia, cidade de São João Paulo II. Muitos jovens brasileiros estarão lá, apesar da distância, da língua difícil, da crise econômica. Aqui entre nós, os jovens estarão reunidos em Ibiúna, também terão catequeses e visitas missionárias, e acompanharão pelo telão os encontros com o Papa.

O papa fala ao coração, isso toca os jovens.

A maneira cordial de falar, os gestos de carinho com os doentes, com as crianças, com os pobres, sua figura simples e humana, acertam em cheio o coração dos jovens. Mesmo aqueles que não tem muita participação nas coisas da Igreja acabam cativados por ele. Prova está nos milhões de seguidores que o Papa tem nas redes sociais, especialmente o Twitter e Instagram.

E o Papa corresponde, mostrando um interesse muito grande por falar aos jovens. Dou um exemplo: em sua última Exortação Apostólica, a Amoris Laetitia, sobre a família, o Papa mais de quarenta vezes se refere aos jovens, fala diretamente a eles, justifica até suas dificuldades em seguir as normas da Igreja por terem contra si uma cultura que não lhes facilita o cultivo da esperança. Fica claro que o Santo Padre conta especialmente com eles como uma grande força na nova evangelização. Separei aqui algumas frases, na Exortação Amoris Laetitia, em que fala sobre os jovens ou aos jovens mas, na verdade,  se dirige  a toda a Igreja.

  1. Boa notícia – Apesar dos numerosos sinais de crise no matrimônio, o desejo de família permanece vivo, especialmente entre os jovens, e isto incentiva a Igreja.”(AL,1) Uma preocupação do Papa é com um grande número de jovens que não mais se identificam com a vocação matrimonial. Seus planos estão voltados para a carreira, para o consumo, para o conforto e o prazer sem compromisso, para a cultura do imediato. Fala daqueles que recusam o caminho do matrimônio em função dos maus exemplos em suas próprias famílias, ou pela insistente mensagem da mídia, contrária ao matrimônio. Felizmente não são todos assim. Pelo contrário, é crescente o número de jovens que querem e lutam por ter uma família bem constituída. A isso o Papa chama de “boa notícia” que anima a Igreja. O papa pede que toda a comunidade eclesial se preocupe com os jovens. E ele próprio, colocando este nome no documento, A Alegria do Amor, quer apresentar a família não como um problema, uma instituição em crise ou um ideal ultrapassado, mas sim, como um caminho feliz, de alegria e realização.
  1. Acompanhar os jovens – “Devemos ser humildes e realistas: a nossa maneira de apresentar as convicções cristãs ajudaram a provocar o que estamos a lamentar” (AL,36). Antes de buscar as causas do afastamento do matrimônio nas razões externas, o Papa convida a todos a bater no peito. Não apresentamos as verdades da fé de forma atraente, alegre, vibrante, como são as coisas de Deus. No caso dos jovens casais, não fazemos um bom acompanhamento do seu amor. Apresentamos, por vezes, um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, distante da situação concreta das famílias. Essa excessiva idealização, principalmente quando não se desperta a confiança na graça de Deus, produz um efeito contrário: não faz com que o matrimônio se torne desejável e atraente, antes o contrário. 
  1. A cultura atual – “Podemos dizer que vivemos em uma cultura que impele os jovens a não formarem uma família, porque privam-nos de possibilidades para o futuro” (AL,40). Vivemos numa cultura de desperdício por parte de alguns e carência de uma grande maioria. O papa cita a realidade de muitos países onde os jovens adiam o casamento em função da pobreza, das dificuldades de emprego, das ideologias contrárias ao casamento e também pela experiência do fracasso. Precisamos encontrar palavras, motivações e testemunhos que toquem o íntimo dos jovens, onde são mais capazes de generosidade, de compromisso, de amor, e até mesmo de heroísmo, para convidá-los a aceitar com entusiasmo e coragem, o desafio do matrimônio. 
  1. O Estado e as políticas públicas – “O Estado tem a responsabilidade de criar as condições legislativas e laborais para garantir o futuro dos jovens e ajudá-los a realizar o seu projeto de formar uma família” (AL,43). O papa chama as atenções para o sério problema das leis e das políticas públicas que vão se introduzindo na sociedade e que destroem e desfiguram a família. Quando a economia é regida unicamente pelo lucro, o progresso se torna destrutivo para a natureza, e a dignidade da pessoa humana é aviltada. O Estado, quando não permite que as religiões se manifestem, faz com que os valores mais nobres do ser humano fiquem esquecidos, a convivência se degrada, a competição sem ética torna-se lei. A família é um grande remédio para todos esses males. Investindo no bem estar da família, o Estado estaria cumprindo melhor o seu papel, com grande lucro para a humanidade. 
  1. Pais e mães ausentes – “O sentimento de ser órfãos, que hoje experimentam muitas crianças e jovens é mais profundo do que pensamos” (AL,173) Francisco contempla bem os dois aspectos: muitos filhos longe das mães, em razão da necessidade do trabalho e, mais ainda, em função de um feminismo que por vezes se fecha ao exercício da maternidade. Também fala dos pais que em razão do trabalho demasiado, ou mesmo pelas separações e novas uniões, se tornam distantes dos filhos. Mãe é o melhor antídoto para o individualismo egoísta. Pai é sinal de segurança, de generoso impulso, de largo horizonte. Pais e mães podem hoje ajudar-se indistintamente em muitas tarefas, porém, a presença clara e bem definida das duas figuras, masculina e feminina, cria o ambiente mais adequado para o amadurecimento dos filhos. 
  1. Papel passado, pra quê? – “Quero dizer aos jovens que… o amor é de fato muito mais do que um consentimento externo ou uma forma de contrato matrimonial, mas é igualmente certo que a decisão de dar ao matrimônio uma configuração visível na sociedade mostra a seriedade da identificação com o outro” (131). Para muitos jovens, o importante é amar. Não há necessidade de formalizar um contrato, realizar um rito, assinar um papel. Muitos assim se esquivam de um compromisso definitivo e assim disfarçam o medo do futuro. O papa fala ternamente aos jovens que a formalização de um compromisso definitivo é a maneira de alguém exprimir que realmente abandonou o ninho materno para estabelecer novos laços, é uma afirmação de que o amor verdadeiro comporta riscos e que a pessoa escolhida merece ser amada incondicionalmente. A recusa de assumir tal compromisso é egoísta, interesseira e mesquinha, sinal de um amor enfermiço e vazio. O amor concretizado no matrimônio, contraído diante dos outros é um “sim” sem reservas nem restrições, capaz de durar para sempre.  
  1. Menos teoria e mais prática – “Aprender a amar alguém não é algo que se improvisa nem pode ser o objetivo de um breve curso antes da celebração do matrimônio” (AL, 208). A preparação para formar uma família acontece desde o nascimento. Deveria ser assim, que a própria vivência familiar ensinasse a criança, o adolescente e o jovem em suas escolhas e seus caminhos. No entanto, hoje em dia, isso não acontece assim. A tarefa de ensinar a amar é de toda a comunidade, através de um acompanhamento rico de proximidade e testemunho. Com antecedência, esse acompanhamento desde o tempo do namoro deverá mostrar os riscos das incompatibilidades, tratar as divergências para não empurra-las pra depois. Esses contatos deverão mostrar que a mera atração mútua não será suficiente para sustentar a união. O simples desejo é volúvel, precário e imprevisível. Uma união duradoura só acontece quando se descobrem outras motivações que conferem a este pacto reais condições de estabilidade. 
  1. Até que a morte separe – “Os futuros esposos, muito concentrados com o dia do casamento, esquecem que estão se preparando para um compromisso que dura a vida inteira” (AL, 215). O Papa Francisco assustou todo mundo com uma afirmação um pouco exagerada. Disse que, hoje em dia, a maioria dos casamentos eram nulos. Os jovens dizem sim para toda a vida, mas muitos não sabem o que isso significa. Tem boa vontade, porém a cultura de hoje valoriza o momento presente, não o futuro. E com isso, o consentimento, que é uma condição essencial para que o matrimônio seja válido, fica prejudicado. O próprio papa amenizou depois essa afirmação dizendo que não se trata da maioria, mas um grande número de casamentos. Esta afirmação do Papa, no entanto, nos deve por em alerta, tanto os jovens como os pastores e toda a comunidade da Igreja, chamada a se interessar pelo futuro das famílias. Formar as consciências tanto é uma tarefa pessoal de quem constrói sua vida, quanto um cuidado daqueles que devem acompanhar os jovens no caminho da construção de sua vida familiar. 
  1. Matrimônio e virgindade – “A virgindade tem um valor simbólico do amor que não necessita possuir o outro, refletindo assim a liberdade do Reino dos Céus.” (AL, 158). O papa Francisco se volta, num momento de sua reflexão sobre a família, para muitos que não se casaram, por circunstâncias ou por decisão. Dedicam-se ao cuidado da família, ou por vezes estão concentrados na vida profissional, ou mesmo não se casaram em vista de uma consagração religiosa. A Igreja, a sociedade e a família se sentem enriquecidas por essa dedicação. A virgindade, aquela buscada como forma de realizar plenamente a união com Cristo, é preciosa e é bela, pois é uma forma de amar. Não é mais sublime que o casamento, nem é inferior ou incompleta. São formas diferentes de realização de uma vida de amor. Podemos dizer que vida celibatária, consagrada à Deus é um serviço, uma ajuda ao matrimônio, na medida em que encarna uma fidelidade, talvez difícil, mas que é um valor para todas as vidas. Também o matrimônio fiel presta um serviço à vida consagrada quando enfrenta os desafios com coragem e lucidez. Ambos se completam, são formas de amar que engrandecem àqueles que escolhem, ou são escolhidos por Cristo, para viver este ou aquele dom, com integridade de coração. 
  1. Jovens e idosos – “Como eu gostaria de ver uma Igreja que desafia a cultura do descarte com a alegria transbordante de um novo abraço entre jovens e idosos” (AL, 191). Francisco muitas vezes se refere ao abandono que a cultura atual dedica aos idosos. Esse abandono nem sempre se traduz em maus tratos, mas é antes uma desimportância clara ao que dizem, à sua história, à sua sabedoria acumulada. Dá-se importância ao que é novo, ao inusitado, ao ainda não experimentado. Com essa mentalidade o mundo atual perde a grande chance de descobrir como se faz para permanecer unidos e amorosos os casais que convivem por quatro, cinco ou seis décadas. O papa quer aproximar jovens e idosos para que as novas gerações conheçam a beleza de um amor que venceu barreiras, amadureceu, deu frutos. Citando um versículo do profeta Joel (Jl, 3,1) o Papa afirma que “os idosos têm sonhos proféticos, eles podem fazer com que os jovens voltem a ter uma visão positiva do futuro”.

 

Papa durante encontro do Movimento Eucarístico Jovem (MEJ) no Vaticano

 Ofereço ao BIO, e especialmente aos jovens, algumas das afirmações do Papa Francisco. São apenas 10 pensamentos colhidos no vasto jardim da Exortação do Papa Francisco sobre o Amor na Família. Eu gostaria muito que estas palavras despertassem nos jovens, nos casais, na igreja toda, o desejo de ler mais e conhecer mais este documento, a Amoris Laetitia, cujo conteúdo é tão atraente para todas as idades. Neste momento, em razão da Jornada Mundial da Juventude, nossa atenção está voltada ao que o Papa dirá aos jovens de todo o mundo, com sua habitual coragem e profetismo. Mas a Igreja do mundo inteiro, confiada por Cristo aos cuidados desse grande pastor, se sente de fato agraciada por sopro tão forte do Espírito, por um dom de Deus de valor incalculável, uma expressão tão concreta da misericórdia divina, que é o nosso Papa.  Seria bem verdade dizer que Deus tomou no colo a sua Igreja para protegê-la, nestes tempos de grandes convulsões no mundo, para recoloca-la no chão, mais adiante, com mais firmeza, com mais consciência, com mais amor.

 

Dom João Bosco, ofm

Bispo da Diocese de Osasco