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Diocese de Osasco

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Voz do Pastor › 04/08/2014

Onde existe partilha, ninguém passa necessidade, e o Reino cresce

Saúdo a meus irmãos presbíteros, e entre eles o Mons. Claudemir que, como Vigário Geral, compartilha comigo mais de perto, a minha missão. Sei que muitos padres gostariam de estar aqui hoje, porém são muitas as atividades nos domingos, e amanhã estaremos todos juntos, celebrando nosso Patrono, São João Maria Vianey. Já estive com muitos padres, e eles fazem crer que podemos formar uma família unida, operosa, pronta para enfrentar os desafios da missão. O mesmo espero dos religiosos e religiosas, dos consagrados seculares, meus irmãos na vida consagrada. Saúdo a vocês com esperança de que a nosso modo de vida brilhe e encante a Igreja, neste próximo ano dedicado à Vida Consagrada.


Saúdo e agradeço a presença amiga de nossas autoridades públicas, e agradeço de modo especial ao Sr. Prefeito Jorge Lapas, por seu gesto de acolhida e proximidade, não só hoje, mas desde o início, que faz com que eu me sinta de fato em casa, nesta cidade. E as demais autoridades, demonstram, com sua presença, o desejo de partilha e entreajuda na missão de servir ao povo. 


Aos leigos e leigas, povo de Deus, envolvidos nos diversos trabalhos pastorais, nas associações e movimentos, aos queridos familiares e amigos que vieram de outras comunidades para esta celebração festiva, a todos, minha saudação franciscana de paz e bem!

Quero de inicio relembrar a estupenda celebração de domingo passado, que me surpreendeu em todos os sentidos: pelo número espantoso de participantes, pela organização, pela beleza e entusiasmo e, mais que tudo, pela grande experiência de comunhão na fé que nós vivemos. Esta é primeira oportunidade que tenho de agradecer a todos, bem como aqueles que enviaram mensagens, por e-mails, telefonemas e outras formas, mostrando estar de coração aberto para acolher o novo bispo. 


Hoje, de alguma forma se completa esse gesto de acolhida, ao assumir o bispo a sua cátedra, lugar simbólico da função episcopal de ensinar, santificar e guiar o rebanho. Assumir a cátedra, e receber o báculo pastoral, foram os gestos principais do rito da posse, lá no Ginásio José Correia. E agora o faço na catedral, o lugar da cátedra. O lugar do mestre.
Mas faço isso com a necessária humildade: basta lembrar que antes de mim, nesta cátedra sentou-se dom Ercílio, cuja bondade e acolhida eu quero de público ressaltar, eu queria que ele estivesse aqui presente, mas ele, com muita liberdade preferiu celebrar numa paróquia e substituir um dos padres, vejam! E antes de dom Ercílio, sentou-se aqui o primeiro bispo diocesano, dom Francisco, que transformou o que era antes uma Região Episcopal da Arquidiocese de São Paulo numa diocese que é das maiores do Brasil. Vocês conhecem, mais que eu, a dedicação e a santidade desses pastores, as belas páginas que escreveram. 
Mas o meu tremor em ocupar a cátedra tem uma razão ainda mais inquietante: Esta cadeira pertence a outro mestre, àquele que hoje no Evangelho olha para a multidão com uma compaixão tão grande, multiplica o pão até sobrar, alimentando concretamente o corpo débil e enfraquecido, assim como sua Palavra alimenta o coração e a alma. 


É ele, Jesus Cristo quem deve ali sentar, ensinar, santificar nossas almas e guiar os nossos pensamentos. Compreendem vocês a minha infinita distância e dificuldade?
Muito sábio, Jesus quis compartilhar com os seus discípulos essa missão, para eles impossível, de alimentar a multidão. “Dai-lhes vos mesmos de comer”, disse ele. Permitam-me entender o sujeito como objeto: Dai-lhes de comer que comida? Vós mesmos. Parece estranho, mas foi o que ele fez: deu a si mesmo como comida a nós. Não será isso o “dai-lhes vós mesmos”?


Cinco pães e dois peixes era pouco, mas era tudo o que tinham, nada mais. E disso ele se serviu para multiplicar. Cinco pães apenas… Era tudo. Notem que o importante aqui não é a quantidade, mas o “tudo”. Quando oferecemos tudo, por mais insuficiente que seja, o milagre está a caminho. Esse é o segredo. 


E se eu, como bispo, não tenho muito para oferecer a vocês, o que eu posso prometer é oferecer o meu “tudo”. Minha vida, meu tempo, meu afeto, a minha história, o que aprendi, o que eu sou, como frade menor, como pároco, que fui em tempos passados, em diversos lugares, como bispo, nos últimos sete anos, é tudo o que eu tenho. E, se posso pedir a vocês o mesmo, peço que se disponham também a oferecer o seu “tudo”. Aos meus caros presbíteros, aos que estão aqui hoje na catedral e aos que aos que vou encontrar amanhã, aos presbíteros eu digo: o Senhor quer o “tudo” de vocês. Não importa quanto tenham. O mesmo olhar de compaixão que Jesus teve com a multidão, deve ser o olhar dos presbíteros com relação aos sofrimentos do povo. O tudo de Jesus estava naquele modo de olhar. Quem olha assim é capaz de tudo. E ele o manifestou na cruz, entregando-se todo sem reservas. É essa a medida alta do nosso sacerdócio. Como é triste quando um pastor, numa comunidade, entrega-se ao trabalho pastoral só em parte, como funcionário da igreja por um número de horas, quem sabe até um bom funcionário, porém, guardando-se pra si mesmo, poupando-se, oferecendo misericórdia em conta-gotas… Não, não é assim que o Senhor quer. O tudo nosso é que deve ser partilhado. O nosso celibato é uma expressão radical desse tudo. E o celibato vem sendo arranhado nesses tempos difíceis que passamos. Não é, por certo, um caminho fácil nem apenas um meio prático de realizar o nosso trabalho. Nosso celibato, que nos distingue de quaisquer outros pastores, é o nosso jeito de imitar o Senhor na cruz, só isso. E isso não admite meias medidas. Não admite, sobretudo, deixar alguma parte estragada em nós, se vamos nos dar em alimento… (o Papa Francisco usou essa linguagem dura para se referir à pedofilia: “aqueles que deviam alimentar as crianças, lhes dão alimento estragado…”). Pães sem fermento, portanto, somos aqueles a quem o Senhor dirige as palavras “dai-lhes vós mesmos de comer”. 


O mesmo vale para os irmãos religiosos e religiosas, e todos os consagrados. Há muita gente, mesmo na Igreja, que não entende bem o sentido da nossa consagração, dos nossos votos. Os votos também são a expressão desse “tudo” que oferecemos para a grande partilha. Vamos rever, neste ano da Vida Consagrada, a quem alimentamos, e como fazemos esse trajeto de “dar-nos a nos mesmos” em alimento ao povo de Deus. 
E aos leigos e leigas, ao povo de Deus, o que sugere o evangelho? À primeira vista, a multidão que seguia Jesus, parece apenas estar recebendo, passivamente, o seu milagre, e até pode ser mesmo que isso aconteça, pois o próprio Jesus vai advertir, amargamente, mais tarde aqueles que o buscavam só porque tiveram o estomago saciado. Aos leigos e leigas, quero voltar ao texto do evangelho pra lembrar um detalhe: Jesus os convidou a todos que se sentassem. Notem a delicadeza do mestre. Sentar-se é expressão do desejo dele que fiquem. Que compartilhem, que se entreguem a essa convivência, sem fuga, sem subterfúgios, sem pressa, sem outros interesses. Sentar-se para a refeição, só se faz com familiares, amigos de fato. Isso hoje é cada vez mais raro, mesmo nas famílias. Come-se com pressa. Há restaurantes que até tem aquelas mesas altas onde as pessoas comem de pé. É como se dissessem a você: coma rápido e caia fora. Aqui não é família. Deem lugar pra outros. Sentados vocês tiram meu lucro, que está na rapidez, na rotatividade. Esse é o mundo que nós vivemos hoje. O mundo da pressa, do interesse, do descompromisso. Jesus pede a vocês “sentar”, compartilhar, recriar o sentido de família, de comunidade. Outro evangelista até fala que se sentaram em grupos de cem, de cinquenta. Isso quer dizer “pequenas comunidades”. Comunidade quer dizer “por a vida em comum”, valorizar mais o “todos” do que o “eu”. E nesse sentido, também para o povo de Deus o pedido de Jesus é o mesmo: colocar o “tudo” de suas vidas em comum. No mundo dividido e competitivo em que vivemos, recuperar o sentido do comum, da comunidade, da inclusão de todos, é uma tarefa urgente. Sentar-se em comunidade, à mesa eucarística, cada domingo, e alimentar a família com o pão vivo que é Jesus, não ser um mero “consumidor” dos “produtos” da fé, mas compartilhar, na fé, a vida, e dar de comer nós mesmos, nossas pessoas, aos famintos pão e de fé, esse é o ambiente de partilha que vamos construir com Cristo, pois onde há partilha, não há necessitados, e o reino cresce. 


Eu citei, de propósito as principais vocações, os presbíteros, os consagrados e os leigos, para lembrar que estamos iniciando o mês das vocações. E para dizer que a nossa aproximação de Jesus se deu não porque nós o procuramos, mas porque Ele nos olhou com compaixão. E nos confiou a cada um, com muito amor uma missão, na igreja, na família, no mundo. 


A mim, pessoalmente, sou muito grato a ele, pois me olhou com extremo amor ao me dar vocês como minha nova família de irmãos. Sei que Ele têm planos bem precisos com essa escolha. E isso me motiva a entregar o meus poucos cinco pães a ele, e a vocês. Que tenhamos, então a partir de agora, um novo tempo feliz, de compartilhar o seu amor. 

Dom João Bosco, ofm
Bispo diocesano de Osasco.

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