Highslide for Wordpress Plugin

O documento final do Sínodo

Foto: Imagem da Internet

Uma Igreja jovem, para os jovens de todas as idades

O Papa Francisco está sempre a surpreender. Desta vez foi com o Sínodo dos Bispos, convocado por ele para que, no mundo inteiro se discutisse a realidade dos jovens. “O jovem, a fé e o discernimento vocacional”, foi o tema. Poderia ser um encontro dos Bispos para ver como atrair os jovens para a Igreja. Poderia ser uma lista de recomendações para a juventude da Igreja. Mas, não. O resultado do Sínodo foi o inverso: como deve a Igreja rejuvenescer, que rosto ela deve ter, a partir do que pedem os jovens, para oferecer aos jovens e ao mundo um lugar onde eles queiram estar e se sintam atraídos por Cristo. Os jovens podem ensinar a Igreja. “Eles podem estar mais à frente dos pastores” e, graças a eles a Igreja pode se renovar, sacudindo “peso e a lentidão”. Por isso, a palavra dos jovens deve ser “acolhida, respeitada e acompanhada”.

O Papa começou por um grande questionário enviado a todos os jovens do mundo inteiro, recomendando especialmente que chegasse também aos jovens que não são da Igreja, para ouvir suas sugestões e queixas, suas esperanças e desafios. Esse material todo reunido é que serviu aos bispos para prévio estudo e reflexão. Equipes de especialistas, pedagogos, e também jovens se reuniram em sessões pré-sinodais para selecionar os temas. E, por último, durante o mês de outubro quase inteiro, os bispos realizaram o sínodo. Tinham os debates seguidos de perto pelos jovens que entravam com aplausos ou manifestações contrárias, e cantos. O Papa Francisco acompanhou pacientemente todas as sessões. O resultado foi entregue ao papa que logo o mandou publicar para que todos possam levar esses ensinamentos para a vida da Igreja.

Rejuvenescer a Igreja

Tenho em mãos o documento final. O documento tem três partes, 12 capítulos, no total 60 páginas. Todos os 167 parágrafos foram aprovados com mais de dois terços dos votos. O nosso Cardeal, Dom Sérgio da Rocha, foi o relator do documento final, acompanhado de uma equipe muito experiente, entre eles Dom Bruno Forte, hoje bispo, que por muitos anos fez parte da Comissão internacional de Teologia.

O esquema geral poderia ser o nosso constante “ver, julgar e agir”. Porém o documento apresenta como fio condutor a passagem evangélica dos Discípulos de Emaús, o que enriqueceu bastante o conteúdo.

A primeira parte: “Jesus caminhava com eles”. Jesus ouve os discípulos, deixa que eles manifestem as suas angústias e dúvidas, suas esperanças e frustrações. Os jovens também manifestam suas preocupações e desafios, a Igreja os escuta com atenção e amor.

A segunda parte: “Seus olhos se abriram”. Jesus lhes mostra, a partir das escrituras, como devem compreender tudo isso que vivem. Aqui o documento dos bispos procura ler as experiências e os pedidos dos jovens com os olhos de Jesus, mostrando como isso tudo se torna mais claro com a iluminação da Palavra e da doutrina perene da Igreja. Veem os jovens como um “lugar teológico” onde Cristo fala à Igreja e ao mundo mostrando o caminho para construir o amanhã.

A terceira parte: “Partiram sem demora”. Depois de reconhecerem o Ressuscitado, os jovens de Emaús fizeram o caminho de volta, para encontrar os irmãos e testemunhar seu encontro com Cristo. Hoje ainda, “da escuta da Palavra se passa à alegria de um encontro que enche o coração, dá sentido à existência, infunde nova energia”. É esta a luz e a força da resposta vocacional que se torna “missão” junto à comunidade e ao mundo inteiro.

Diálogo e sinodalidade

O Documento final do sínodo é rico em temas não só para os jovens, mas para toda a Igreja. Ele se conecta naturalmente com o tema anterior da família, consagrado pelo Papa na Exortação “Amoris Laetitia”, mas também se liga aos demais textos do magistério de Francisco, desde a Igreja inteiramente missionária (da Evangelii Gaudium), passando pelo natural interesse dos jovens pela ecologia (Laudato Si) até o chamado universal à santidade (Gaudete et Exsultate). Tudo isso com o tempero e a ousadia dos jovens que insistiram numa posição corajosa e clara sobre a sexualidade, o combate aos abusos sexuais, a homossexualidade, o papel da mulher na Igreja entre outros temas. “Os jovens querem uma Igreja que brilhe pela autenticidade, pela exemplaridade, competência, corresponsabilidade e solidez cultural. Por vezes essa exigência soa como uma crítica, mas muitas vezes assume a forma positiva de um compromisso pessoal por uma comunidade fraterna, acolhedora, alegre e comprometida em lutar contra a injustiça social.”

Este texto final, embora autorizada a sua publicação, por parte do papa, ainda não é uma palavra definitiva. Espera-se que o papa ainda escreva uma Exortação pós-sinodal que reúna e ratifique estas posições. É, portanto ainda e sempre, um caminho aberto de diálogo, de conversão e de abertura para o futuro. Porém, conhecendo o Papa Francisco, seu respeito pela colegialidade e sinodalidade, seu modo franco de dialogar com o mundo, podemos ler com proveito e certeza de que o que foi feito até aqui é de grande valia para todos nós, jovens de todas as idades. Os bispos no sínodo cercados de jovens eram um retrato do que disse o profeta Joel, e que Francisco gosta de citar: “Derramarei o meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões.” (Jl,3,1)

Dom João Bosco, ofm
Bispo Diocesano de Osasco