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A Misericórdia é candidata nas próximas eleições

Foto: Pascom Diocesana

Os pré-candidatos às eleições de outubro acolheram o convite feito pelo Setor Pastoral Social da Diocese de Osasco e compareceram ao Centro Diocesano de Pastoral, no último dia 19 de março. Ouviram a exposição feita pelo professor José Mário Brasiliense Carneiro, especialista em cidadania política e gestão de políticas públicas voltadas para o município. O professor salientou a importância do município no contexto da Federação, mostrando que o Estado não é um fim em si mesmo, mas existe em função da promoção da dignidade das pessoas.

A cada eleição a Igreja se movimenta para orientar e formar com critérios cristãos a consciência dos seus leigos, quanto a responsável participação na vida política. As eleições deste ano chamam ainda mais a atenção, pois sendo municipais – prefeitos, vice-prefeitos e vereadores – o envolvimento com candidatos conhecidos das comunidades torna a campanha mais próxima, mais aguerrida e, quem sabe, até mais conflitiva. O debate democrático é mais enriquecedor, sem dúvida, mas pode também deixar cicatrizes e divisões que não se curam com facilidade.

Para complicar um pouco mais o clima das eleições municipais deste ano, temos como cenário o momento político em nível nacional, com manifestações pelas ruas do país e um embate político e jurídico que não permite entrever as consequências: presos com as mãos em grandes volumes de dinheiro, os condenados entregam empresários e políticos em delações premiadas, grampos telefônicos, revelações escabrosas das entranhas do poder. A disputa partidária nacional passa também pelas veias das eleições municipais, conturbando ainda mais o processo, fazendo com que muitos entendam a política como coisa suja.

O Papa Francisco responde a essa questão com clareza: “Por certo a política está muito suja”, diz ele. E pergunta: “Por que está suja? Porque os cristãos não se metem nela, com espírito evangélico”. É a sua resposta. Num diálogo muito franco e informal com os jovens das Comunidades de Vida Cristã (CVX em 30.04.2015), o Papa abre o coração mostrando o quanto é árdua e necessária a missão dos leigos cristãos que se sentem vocacionados para a vida política.

Coloco aqui textualmente a fala do Papa nessa ocasião, como que dialogando consigo mesmo, formulando as perguntas e respondendo assim:  «Mas o católico pode intrometer-se na política?» — Deve! Foi o beato Paulo VI quem afirmou que a política é uma das formas mais elevadas da caridade, porque busca o bem comum. «Mas Padre, não é fácil fazer política porque, neste mundo corrupto… no fim, não se consegue ir em frente…». papa franciscoO que queres dizer-me, é que fazer política é um pouco como um martírio? Sim! Sim, é uma espécie de martírio!
É de fato um martírio quotidiano: promover o bem comum, sem te deixares corromper… Fazer política é um martírio: trata-se verdadeiramente de um trabalho para mártires, porque é necessário ter sempre, todos os dias, o ideal de construir o bem comum. É preciso também carregar a cruz de muitos fracassos,  inclusive suportar a cruz de numerosos pecados, porque no mundo é difícil praticar o bem, no meio da sociedade, sem sujar um pouco as próprias mãos ou até o coração; mas deves pedir perdão por isto, pedir perdão e dar continuidade à obra. Que isso não te desanime! «Não, Padre, não faço política porque não quero pecar!» — Mas assim não praticas o bem! Vá em frente, pede ao Senhor que te ajude a não pecar; contudo, se te sujares as mãos, pede perdão e vai em frente!. Mas continua, continua…”

Acho que é uma posição muito corajosa essa do Papa, ao dizer que o pecado é de fato inevitável na condição humana e, que por isso só podemos ir em frente agarrados na misericórdia do Senhor. Talvez essa reflexão do Papa nos ajude a encarar uma das dificuldades constantes que temos em nossas comunidades quando alguém desponta como candidato. É apoiado e quando vence, se sente só, ou até mesmo entregue à má influência dos meios políticos e, em breve, estará desvinculado da comunidade e dos preceitos éticos. Acompanhar os que chegaram ao mandato, relembrar seus compromissos com o bem comum, e os próprios eleitos colocarem diante da comunidade seu martírio, esse parece ser o caminho.

Só posso entender, a partir dessa visão do Papa Francisco, e muito dentro do espírito deste Ano Jubilar da Misericórdia, que aqueles que vierem a se apresentar em nossas comunidades como candidatos devam, se são cristãos, ser movidos pela misericórdia. Ela deve estar presente em seus programas e projetos, e garantida pela sua atuação na comunidade já antes da candidatura. Sem criar divisões, deve confrontar a todos os eleitos, independente de partidos, com o olhar de Cristo misericordioso que, ele sim, deve inspirar e julgar, perdoar e recolocar no caminho, aqueles que se sentiram chamados a servir ao bem comum por meio da atividade política.

Dom João Bosco,ofm
Bispo de Osasco – SP
www.dbosco.org

 

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