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Diocese de Osasco

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Voz do Pastor › 17/10/2019

Dízimo: orientações e propostas

O Dízimo é uma oração silenciosa

“Religião e dinheiro não se misturam. Ou, quando se misturam, não sai coisa boa…” Era a opinião de Seu Orlando, um senhor já de idade, católico de missa diária. Mas mesmo com essa ideia assim negativa, Seu Orlando, sempre foi muito generoso e fiel com o dízimo. Desde que ficou sem a esposa, filhos já criados, ele passou a coordenar a Pastoral do Dízimo e fazia parte do Conselho de Assuntos Econômicos da nossa Paróquia. Mas não achava certo que a Paróquia tivesse show de prêmios, sorteios e promoções. Pior ainda, as festas com bebidas alcoólicas. São um mal exemplo e uma péssima fonte de recursos mesmo quando usados para evangelizar. E não queria que houvesse uma campanha do Dízimo, ou mês do Dízimo, porque, no seu modo de ver, a consciência dos dizimistas devia ser cultivada sempre, não só no mês. Um dia, resolvi provocar Seu Orlando dizendo que ele estava sendo contraditório. Tinha uma visão muito negativa sobre as promoções e eventos que podiam gerar os recursos necessários para a Igreja. E sabia bem que o dízimo era insuficiente. Que fazer?

Seu Orlando, que era um homem simples e direto, se defendeu assim: Que dinheiro e religião não se misturam, afirmou o próprio Jesus: “não se pode servir a Deus e ao dinheiro!”. Afinal em qual dos dois colocamos nossa confiança? A comunidade precisa, sim, de recursos. “Mas as campanhas não terão efeito se forem feitas só mostrando as necessidades. Ou usando frases bíblicas que incentivam o dízimo para que Deus devolva com sucesso e recompensa. É um argumento muito egoísta, próprio dos fariseus, e bem ao gosto do mundo ganancioso de hoje”, disse ele. E completou sua ideia dizendo que o fundamento para alguém ser dizimista fiel são três pontos: o primeiro se chama “gratidão”. Se alguém não fizer uma experiência profunda de ser amado e perdoado por Deus, o dízimo será uma taxa, ou obrigação sem sentido. O segundo ponto é a “confiança”. Se eu não confiar em Deus eu vou buscar outra coisa para me dar segurança. E o dinheiro é a alternativa que o mundo oferece. Então preciso guardar, poupar, ajuntar. Meu dízimo vai ser sempre o mínimo. O terceiro se chama “fraternidade”. Se eu não entendo a comunidade como minha família de sangue, só vou lhe dar as sobras. Os outros membros da equipe ainda argumentaram dizendo que a conversa do Seu Orlando era sonho, que a necessidade era mais imediata, que devia haver campanha, sim. Mas o velho e humilde senhor tinha, no fundo, razão.

Fizemos, naquela ocasião, um compromisso na Pastoral do Dízimo, de movimentar as pastorais, os grupos e associações, não numa campanha passageira, mas focando os três caminhos citados por Seu Orlando: a gratidão a Deus, a confiança na Providência, e o compromisso com a Fraternidade. Muitos anos passaram, vejo que a CNBB se preocupou recentemente com esse assunto, publicando um documento (nº 106) que tem como tema “O Dízimo na Comunidade de Fé – Orientações e Propostas”. Vejo que, de alguma forma esses mesmos pontos estão presentes no documento. Por isso quero, neste mês recomendar para as nossas comunidades e paróquias, para os párocos e aqueles que coordenam esta pastoral nas Comunidades, que estudem esse documento e o apliquem, ou reforcem as iniciativas que já existem para não ficarmos parados diante das dificuldades enfrentadas, nem forcemos atalhos para alcançar resultados só materiais, sem o crescimento da consciência filial e do amor fraterno.

 

Dízimo – uma questão de amor

Dízimo é diferente de coleta, oferta ou esmola. Oferta é ocasional, coleta é espontânea, e esmola é impulso de compaixão. Cada coisa tem a sua importância e oportunidade, porém, só o dízimo é fruto de um comprometimento a partir da Fé. A Fé não é um conjunto de doutrinas, nem um passaporte para receber favores de Deus. Crer é um verbo que vem da língua latina: “credere” que tem sua origem na expressão “cor+dare”, que significa dar o coração. A fé, portanto, é uma entrega gratuita e incondicional do nosso coração a Deus. Por isso existem graus diferentes de fé: podemos cresce ou diminui se a cultivamos ou relaxamos. Os discípulos pediram a Jesus: “aumenta a nossa fé”. Ela é um dom de Deus, mas exige cooperação nossa. A fé, portanto, não é um ato da razão, mas também não é apenas sentimento. Ela envolve sentimento, vontade, intelecto, a pessoa inteira que reconhece em Deus seu criador e Senhor. Crer é mais do que ver, e é mais do que saber, porque no ato de crer tem muito de amor. A fé tem necessidade de se expressar, assim como o amor precisa de gestos para se expressar. As expressões de fé se chamam ritos e o conjunto de ritos se chama religião. Mas eu posso fazer um rito, frequentar uma religião, sem ter fé. Se é a fé que me move, essa expressão será feita de amor. O dízimo se inscreve nesse contexto da religião. É uma questão de amor. Por isso o compromisso do dízimo não é uma obrigação moral ou jurídica, mas um gesto de amor. É uma oração silenciosa, porque esse amor se dirige a Deus. É também um recado à comunidade, como que dizendo: pode contar comigo, pois eu fiz uma opção de participar, uma conversão por amor e para o amor.

 

Imagem Internet

Deus ama a quem dá com alegria

A segunda carta de São Paulo aos Coríntios nos fala que “cada um deve dar conforme tiver decidido em seu coração, sem pesar nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7). A palavra dízimo significa dez por cento e era isso que determinava a Lei, no Antigo Testamento. Era um compromisso com Deus e uma afirmação de fé, um reconhecimento de que tudo pertence a Deus e o reconhecemos como Senhor de nossa vida. Assim vemos já no livro do Gênesis: “Abraão deu ao Senhor a décima parte de tudo”. No Novo Testamento, o compromisso com Deus não é mais determinado pela quantidade, mas pela generosidade, conforme o coração, devendo ser uma quantia importante e significativa, generosa como o gesto de Deus: “Deus nos amou tanto que nos deu seu Filho Unigênito” (Jo 3,16). Portanto, pode a nossa contribuição ser menor que dez por cento. Mas pode também ser maior que isso, se assim a nossa fé e o nosso coração estiverem em sintonia com Deus.  É bonito também quando o dízimo é decidido em família, e todos participam dessa decisão, mesmo as crianças e os jovens que já vão colocando nesse gesto o seu compromisso de servir ao Senhor.

 

O projeto diocesano de Pastoral do Dízimo

O trabalho da Pastoral do Dízimo, nas várias paróquias da Diocese de Osasco é efetivo, porém, carece de unificação e fortalecimento. Por isso, foi criada uma nova Equipe Diocesana do Dízimo, com a finalidade de, em primeiro lugar, conhecer o trabalho que já é realizado. Deve perceber quando o dízimo está menos motivado, ou quando não atende a cada uma das dimensões essenciais: a finalidade religiosa (manter a atividade litúrgica e a evangelização), a finalidade eclesial (manter as estruturas da paróquia e da diocese), a finalidade missionária (a partilha de recursos e o investimento no crescimento do Reino) e a finalidade caritativa (a promoção social e as obras de misericórdia). A Equipe Diocesana se encarregará de orientar e sugerir o caminho proposto pelo documento 106 da CNBB, elaborar subsídios comuns, divulgar as iniciativas mais efetivas. Claro que a responsabilidade primeira é de cada pároco e das equipes locais. Por isso, esse primeiro estudo é necessário. Algumas paróquias se candidataram para um projeto piloto que, depois de avaliado, poderá ser apresentado a outras paróquias, numa constante renovação e aprimoramento.

A solidariedade que o Dízimo promove entre as comunidades de uma mesma paróquia e entre as paróquias da mesma diocese, assim como a partilha das necessidades da evangelização fora do âmbito diocesano nos levam a acreditar que o dízimo, bem compreendido e vivido, não é, talvez, a virtude mais elevada da vida cristã. Mas é a base, o chão sobre o qual se constroem as relações de amor, que é a maior das virtudes. Afinal, se buscamos o amor, a verdade, a virtude mais elevada, mas não conseguimos nem o mais simples é a partilha material e prática, que verdade há nesse amor? Abramos o coração para esta verdade.

Dom João Bosco, ofm   –  Bispo Diocesano

 

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