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Ano Mariano: Deus nos deu de presente a sua própria Mãe

Foto: Pascom Diocesana

 

A imagem peregrina de Aparecida, por onde passa, atrai os fiéis que manifestam visível alegria e confiança em Maria, com cantos, flores, preces, aplausos. Não é raro, diante de Maria, se encontrar alguém com os olhos cheios de lágrimas, por vezes de alegria, mas também grossas lágrimas de dor. Maria é amada por todo o povo católico, e nesses 300 anos, desde que sua imagem foi encontrada no Rio Paraíba, não dá para contar tudo o que aconteceu de milagres, conversões, recuperação da vida e da saúde, da fé e da alegria de viver, só de ouvir testemunhos, só de ver sua imagem, só de ouvir seu nome simples e belo: Aparecida.

A origem da devoção mariana de Aparecida é singela: homens pobres, porém cheios de fé, ao encontrar o corpo da imagem, e depois a cabeça, entenderam esse achado como mensagem de Deus. Esse encontro transformou suas vidas, depois a vizinhança, e por fim o Brasil inteiro numa torrente de graças que não parou de crescer. Deus, de fato, age assim por meios simples, e através dos pequenos e humildes. “Em Aparecida – dizia o Papa Francisco em sua primeira visita ao Brasil – Deus ofereceu ao povo brasileiro a sua própria mãe.”

 

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Um ano todo dedicado a Maria

Pensando em agradecer a Deus por tantas graças recebidas pelo povo brasileiro e para fazer crescer ainda mais o amor à Maria Santíssima, os bispos do Brasil aprovaram a proclamação de um ANO NACIONAL MARIANO que será celebrado desde o dia 12 de outubro de 2016 até o dia 11 de outubro de 2017.

 

 

Maria, de fato, nos oferece um caminho direto de acesso a Cristo, nosso Senhor, e sua vida está inteiramente voltada para o mistério mais importante da nossa fé, o mistério da
Encarnação. Ela nos oferece atitudes humanas a imitar e nos coloca em plena sintonia com o ensinamento, a paixão e a ressurreição de seu Filho, nosso Redentor. É certeza: vivendo bem o Ano Mariano, terminaremos o ano mais cristãos.  Maria é ainda modelo da Mãe Igreja, que reúne seus filhos, intercede e protege, incentiva e ilumina os passos de todos nós. Este ano de Maria começa quase ao mesmo tempo em que encerramos o Ano da Misericórdia, e tem muito sentido esta continuidade, pois ela é a Mãe de Misericórdia, como rezamos em sua bela oração.

O exemplo de Maria nos comove e sugere gestos concretos

Para marcar este Ano Mariano, sugiro a você, leitor, escolher alguns gestos simples, mas bem concretos, para que se tornem hábitos em sua vida cristã. Por exemplo: a recitação da Oração do “Angelus” com as três ave-Marias. Costuma ser recitada esta oração a cada dia, nos horários de 6h e 18h, e se quiser também às 12h e até mesmo à meia noite, para quem dorme tarde. É uma maneira de santificar o dia todo com a memória da vinda do Senhor. Outra prática riquíssima: o Rosário, que é uma verdadeira bíblia de bolso. Escolher uma hora determinada e rezar em família, ou chamar os vizinhos. Combinar com aqueles que rezam juntos a iniciativa de visitar os doentes; dedicar-se a leitura mais constante da Bíblia, acompanhar alguém no caminho da fé. São coisas simples, podem ser tornar constantes, e em tudo agradar a nossa Santa Mãe.

Aparecida, lição de Deus

Quando veio a primeira vez ao Brasil como Papa, Francisco se encontrou com os bispos, no Rio de Janeiro. O Papa falou com muito carinho a respeito de Nossa Senhora Aparecida. Eu estava bem em frente, na segunda fila, e deixei o gravador do celular ligado para guardar suas palavras. Recordo destes pontos que me ficaram como lição:

  1. Ela veio encontrar-se com os pobres – O Papa Francisco começou dizendo que, em Aparecida, Deus ofereceu ao Brasil a sua própria mãe. Mas deixou também uma lição sobre Ele mesmo, sua maneira de agir. Deus escolheu aqueles pobres pescadores porque Ele age sempre assim: escolhe os pequenos, os pobres. Ainda hoje é assim. Quando olhamos para aquela multidão de gente que, em romaria, se encontra em Aparecida são, a grande maioria, pobres. Levam consigo suas carências e sofrimentos. Ou o agradecimento por momentos difíceis vividos. As muitas fotos e relatos contam histórias de superação. “Deus sacia de bens os famintos e despede os ricos sem nada”, dizia Maria (Lc 1, 53). Você, enfrenta dificuldades? Busque a Deus, busque a Maria. Confie, peça. Compartilhe com os mais necessitados aquilo que você tem. Aquilo que é compartilhado é multiplicado.

 

  1. Um barco simples, redes rompidas – O Papa mencionou a precariedade de recursos dos pescadores. Um barco pequeno, frágil, inadequado. Redes já antigas, quem sabe danificadas, insuficientes. O Papa comparou com a Igreja, pois os apóstolos do tempo de Jesus eram pescadores. Também eles tinham poucos recursos. Jesus os escolheu assim e os fez capazes de ir pelo mundo. A Igreja também é assim. Não devemos imaginar que a evangelização mais eficiente é aquela que se faz com grandes recursos, ostentação e conforto. “Não leveis bolsa, nem sacola, nem calçado…” (Lc 10,4). Era assim que Jesus ensinava aos setenta e dois discípulos que enviou a pregar. Nossas comunidades são pobres, lutam para conseguir um espaço, é difícil concluir uma construção, angariam pequenos recursos de muitos para os necessitados, para realizar a missão. E assim as comunidades vão crescendo.

 

  1. A pesca sem resultados – Na história de Aparecida, acentua o Papa Francisco, houve primeiro o insucesso, o cansaço, muito esforço, mas as redes continuavam vazias. Parece o mesmo que aconteceu com os apóstolos, quando Pedro dizia a Jesus: “Senhor, trabalhamos a noite toda e nada pescamos” (Lc 5,5). Em nossa vida muitas vezes não é mesmo assim? Buscamos soluções para os nossos problemas, mas parece não ter saída. A Deus nada é impossível, dizia o Anjo a Maria, quando Isabel, estéril, engravidou. Pedro lança novamente a rede e ela vem cheia de peixes. O maior exemplo disso é o próprio Cristo que passa pela morte cruel, pelo fracasso da cruz, porém sua morte se torna vitória, se faz ressurreição. É preciso perseverar no bem. O mal, que parece vencer, tem os seus dias contados. Aquilo que parece insucesso, acaba por mostrar o seu fruto, a abundância de vida. Maria testemunha essa verdade dizendo que Deus faz maravilhas naquele que crê em sua promessa.

 

  1. Maria chega de surpresa – No momento estabelecido por Deus, ele se manifesta. Deus sempre surpreende, põe à prova a paciência, a perseverança, a humildade de quem espera por sua intervenção. Vem trazendo consigo o seu mistério. Os pescadores de Aparecida entenderam que estavam diante de uma revelação de Deus. Uma imagem de barro pequena, escurecida pelas águas e pelo tempo que ali permaneceu. Uma imagem da Imaculada Conceição. Ainda não era dogma proclamado como verdade de fé. Mas já estava presente no coração do povo cristão. Os teólogos discutiam como era possível que Maria fosse imaculada, ou seja, não tivesse o pecado original quando nasceu, uma vez que todos os seres humanos eram marcados pelo pecado de Adão. Surpresa: Deus antecipou a ela a graça da redenção, já prevendo a salvação trazida ao mundo por seu filho divino. O coração de Deus encontra caminho lá onde a nossa inteligência não chega.

 

  1. Primeiro o corpo, depois a cabeça – Diz a história a imagem de Aparecida não veio às redes de uma só vez. Veio primeiro o corpo, depois a cabeça. O Papa Francisco explica assim: Deus não se revela de uma vez, mas aos poucos. Há aqui uma lição que deve ser aprendida: não se pode desprezar a revelação de Deus, mesmo que incompleta. Maria não compreendeu bem a mensagem do anjo Gabriel. Como vai acontecer isso? Ela é convidada a guardar esse mistério incompreendido, na confiança de quem o apresenta. Ela confia e “guarda todas as coisas no seu coração” (Lc 2, 19). Nós hoje temos muita pressa, queremos saber tudo muito rápido e por isso rapidamente rejeitamos aquilo que não nos parece útil, prático ou lógico. Com isso jogamos fora a chance de Deus nos surpreender com um caminho que não havíamos suspeitado. Só depois, os pescadores juntaram as partes do mistério de Aparecida. Só depois entenderam o seu significado pleno, quando suas vidas começaram a se transformar.

 

  1. Os pedaços do mistério – Aquilo que era dividido, diz o Papa Francisco, se torna unidade. Ele lembra que o Brasil, naquela época estava dividido pelo muro vergonhoso da escravatura. Nossa Senhora Aparecida se apresenta de face negra, primeiro dividida, depois unida nas mãos dos pescadores. Que grande lição! E que força para que o Brasil se livrasse dessa terrível chaga da escravidão. Mas o preconceito de cor ainda não foi vencido. Os pobres de hoje continuam a realidade dos escravos de ontem, independente da cor. Os senhores de escravos que ficam com tudo para si, enquanto os escravos ficavam só com o trabalho, continuam na pessoa de empresários corrompidos que dão as mãos a políticos corrompidos que fazem a festa com o dinheiro das empresas estatais, enquanto faltam hospitais, postos de saúde equipados, escolas de qualidade, e até alimento para tantos escravos de hoje… Maria, Santa Mãe Aparecida, não nos deixes desamparados, nesta hora em que o nosso Brasil, o seu Brasil, se encontra tão descarrilhado dos trilhos da justiça, da verdade e da paz social. Continua a nos  amparar  e ensinar o caminho da unidade e do amor.

 

  1. Os pescadores trazem para casa a imagem – Podiam ter deixado a imagem quebrada no fundo do rio, perdida para sempre. Mas não. Os pobres não desprezam o mistério encontrado, mesmo que incompleto, dizia o Papa Francisco. Levam para casa. Colocam um manto bonito, vestem o mistério da Virgem como se ela tivesse frio, precisasse ser aquecida, protegida. Deus pede para ser abrigado, explica Francisco, na parte mais quente de nós mesmos: no coração. Depois é que Deus irradia o calor de que precisamos. Em casa, Maria encontra a família que se reúne em volta dela. Cada família tem sua beleza, e tem seus dramas, é um jardim que tem flores e espinhos. A família que têm Maria a seu lado, mesmo carregando seus tropeços e problemas é uma família feliz, capaz de crescer no amor e vencer. Abrigada em nossos lares, Maria possa ajudar-nos a oferecer o abrigo da Igreja e a misericórdia de Cristo a todas as famílias, mesmo aquelas incompletas, irregulares e distantes do ideal do matrimônio, aquelas que o Papa Francisco pede que sejam acolhidas, acompanhadas e integradas na vida da Igreja, porque ninguém pode se sentir excluído do amor misericordioso de Deus e de Maria.

 

  1. Os pescadores chamam os vizinhos – A imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida passou a ser o ponto de encontro dos vizinhos que vinham para rezar e contar para a Virgem suas dificuldades e carências. Mas ao mesmo tempo passou a ser o ponto de partida para aqueles que, tendo rezado juntos, entendiam ser necessário partir, levando a fé, a solidariedade, a presença generosa a outras famílias. Assim foram se multiplicando as pessoas, e também se mostrando a intenção de Deus de provar, através de Maria, o seu amor. Uma graça alcançada, depois outra graça, depois mais uma, muitíssimas graças alcançadas, Deus vai mostrando sua força, sobretudo no perdão e na misericórdia. Aparecida assim se tornou um grande centro missionário que hoje chega ao Brasil inteiro e até mais longe. Como foi que o Brasil inteiro manteve a fé cristã, mesmo nos lugares onde não havia padres para celebrar a eucaristia, nem pregadores para ensinar a doutrina? Não foi Maria, nossa Mãe Aparecida, com a recitação do Rosário, com sua imagem presente em tantos lares brasileiros, a grande missionária a levar o Evangelho para toda parte? O Grande Papa Paulo VI a chamou, com razão, a Estrela da Evangelização. A ela vamos pedir que nossa Igreja se torne sempre mais missionária, mais “em saída”, sempre nos caminhos, a levar a  boa notícia  do reino.

 

  1. Aparecida, o encontro de caminhos – A cidade de Aparecida fica na estrada que une o Rio de Janeiro, São Paulo e, do outro lado, Minas Gerais. Não passou despercebido ao Papa Francisco que a Virgem Maria quis aparecer em um lugar que era uma encruzilhada de caminhos: de um lado a capital política do Império, do outro o centro empreendedor e gerador de riqueza e, mais à frente, as cobiçadas minas de ouro que os europeus queriam possuir. Era o coração do Brasil Colonial. A realidade política e econômica pode ter mudado. Não mudou, porém, o coração religioso do Brasil. Hoje podemos acrescentar que Aparecida se tornou a capital da fé. Romeiros de todo o Brasil ali se encontram aos pés de Maria. Em Aparecida, anualmente, se reúnem os mais de trezentos bispos brasileiros, em Assembleia Geral. Em Aparecida aconteceu a 5a  Assembleia Geral  do Episcopado da América Latina e Caribe, donde surgiu o grande impulso da Missão Continental, a Igreja de discípulos-missionários que vem renovando toda a ação evangelizadora do Continente. Eleito papa o Cardeal de Buenos Aires, agora Papa Francisco, fez do Documento de Aparecida o seu programa de Pontificado, a Evangelii Gaudium, para todo o mundo católico, com grande simpatia e sabedoria, pedindo à Igreja que seja sempre mais “uma igreja pobre para os pobres”, misericordiosa e acolhedora como Cristo desejou e ensinou. Mais do que nunca, Aparecida se tornou uma convergência de caminhos de toda a Igreja do mundo inteiro, na maturidade dos seus 300 anos que estamos a comemorar.

 

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No primeiro sábado de maio, a cada ano, a Diocese de Osasco se põe em romaria a Aparecida. Chegamos perto de 400 ônibus – cerca de 18.000 peregrinos – fora os carros pequenos e vans. Em maio deste ano, recebemos de presente do Santuário de Nossa Senhora a imagem peregrina que está percorrendo a diocese até maio do próximo ano. Gostaria de pedir desde já, que para a romaria que acontecerá em 6 de maio de 2017, haja esforço extra de todas as paróquias. Aquelas paróquias que não abriram mão de suas datas particulares e, por isso, ainda não estiveram caminhando junto com as demais paróquias, peço que revejam essa atitude no ano que vem, quando estaremos fazendo a nossa romaria jubilar dos 300 anos. Podemos dobrar o número de romeiros. E isso, não para ostentar números de estatística, pois isso é o de menos. O mais importante é deixar-nos comover por essa Mãe, por estar ela unida inseparavelmente a seu Filho; deixar-nos guiar por seu exemplo de simplicidade, alegria e gratidão, deixar-nos impregnar de seu testemunho evangélico, tornarmo-nos mais filhos seus e irmãos em Cristo, como Igreja missionária, despojada e misericordiosa, como clama o Papa Francisco, como quer o Evangelho.

 

Dom João Bosco, ofm
Bispo de Osasco – SP
http://dbosco.org