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Diocese de Osasco

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Voz do Pastor › 24/11/2014

Leigos: Cresce a consciência da missão dos leigos na Igreja

A imensa maioria do povo de Deus é constituída por leigos. Ao seu serviço, está uma minoria: os ministros ordenados. Cresceu a consciência da identidade e da missão dos leigos na Igreja.   Estas afirmações são do Papa Francisco e estão na Evangelii Gaudium (n.102), a exortação apostólica que o Santo Padre considera como seu programa de governo.

Celebramos no dia 23 de novembro, Jesus Cristo Rei do Universo, e o Dia do Leigo que, na Diocese de Osasco, é festejado de forma solene, com manifestação pública no Ginásio de Esportes José Correia, em Barueri, neste ano com a participação especial dos Conselhos paroquiais e comunitários e conselhos econômicos, além das coordenações pastorais que estão sendo renovadas e que valerão para os próximos 3 anos.

Vamos aqui lembrar alguns aspectos da vida e da missão dos leigos, tema que foi o assunto tratado na última Assembleia das Igrejas do nosso Regional Sul 1, e que será também tema prioritário na Assembleia Geral da CNBB, em 2015.

Por que o tema do laicato voltou à discussão?

Estamos comemorando 50 anos do Concílio Vaticano II e da Lumen Gentium especialmente, documento assinado por Paulo VI no dia 18 de novembro de 1965. A maioria de nós não faz ideia do que era a Igreja antes do Concílio, tamanha foi a transformação. Para ficar apenas no nosso tema, os leigos, basta dizer que toda a teologia, a liturgia, a Biblia, tudo isso era em Latim, língua que só o clero conhecia.

Aos leigos sobravam as devoções, recitadas em particular ou cultivadas nas irmandades, com pouquíssima instrução além dos mandamentos, do catecismo decorado, da consideração dos vícios e das virtudes. Não sem razão, o termo “leigo” passou a ter um sentido negativo, de quem não tem conhecimento nem importância. Entre os leigos e o clero havia uma enorme distância. Foi o Vaticano II que promoveu uma grande mudança e redefiniu a Igreja como “povo de Deus”.

Devolveu ao leigo o seu lugar de importância e fez perceber que sem os leigos, a Igreja não seria capaz de levar o Evangelho ao mundo, não poderia realizar sua missão. Clero e leigos, todos têm a mesma dignidade, pelo batismo, a mesma missão de evangelizar, e a mesma vocação que é a santidade (cf LG,32). É claro que essa transformação na consciência da Igreja não aconteceu de imediato. Foi um longo percurso. Na 36ª Assembleia das Igrejas, em Itaici, no último mês de outubro, Dom Julio Akamine, Bispo Auxiliar de São Paulo, fez uma exposição brilhante, comparando o laicato com um rio caudaloso. Começa com uma pequena fonte que brota da terra, e depois vai juntando outros afluentes, torna-se um riacho, depois se torna uma torrente, a que se somam outras águas, até formar o grande rio que fertiliza os campos e lavouras. No caso dos leigos, a fonte foi o Concílio, com a constituição dogmática Lumen Gentium, e com o documento próprio sobre os leigos, chamado Apostolicam Actuositatem. Ficou claro que o leigo participa da missão da Igreja, levando a luz do Evangelho à família, ao ambiente social, às instituições políticas e econômicas, ao ordenamento nacional e internacional. O rio cresceu com o Sínodo sobre a vocação e missão dos leigos, que precedeu a Exortação Christifideles Laici, do Papa João Paulo II, que trouxe uma compreensão bem mais abrangente do papel essencial do leigo na Igreja (comunhão) e no mundo (missão).

O rio se torna caudaloso, na américa Latina, com as Assembleias do Celam, em Medellin, Puebla e Santo Domingo. Chegou assim ao Documento de Aparecida, em que a igreja quer colocar-se em “estado permanente de missão” E agora vem a Exortação apostólica do Papa Francisco, a Evangelii Gaudium, onde ele reconhece: “Hoje podemos contar com um numeroso laicato, dotado de um arraigado sentido de comunidade, e uma grande fidelidade ao compromisso da caridade”. Foi pensando nesse grande laicato, e na urgência do trabalho missionário que a CNBB abraçou o tema que resultou em um estudo intitulado  “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade” (doc 107), que será novamente aprofundado por todos os bispos no próximo ano.

Cresceu, mas não o suficiente

O Papa reconhece que o número de leigos conscientes cresceu, mas precisa crescer mais. “Apesar de se notar uma maior participação de muitos nos ministérios laicais – diz o Papa – este compromisso não se reflete na penetração dos valores cristãos no mundo social, político e econômico; limita-se muitas vezes às tarefas no seio da Igreja, sem um empenhamento real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade. A formação dos leigos e a evangelização das categorias profissionais e intelectuais constituem um importante desafio pastoral.”(EG, 102). Notemos que a Exortação Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, seu programa de pontificado, tem como meta e resumo, tornar a Igreja missionária, presente no mundo como mãe que cuida dos filhos, entrando sem medo de ferir-se, no meio das contradições e particularidades da cultura e da vida dos homens de hoje.

Os dois últimos capítulos da Exortação, intitulados “A dimensão social da evangelização” e “Evangelizadores com Espírito”, supõem um laicato vivo, alegre, bem formado, que não fique só nas atividades internas da Igreja, como os movimentos, a liturgia, mas que leve os valores evangélicos, com ardor missionário, para o coração das famílias, para o mundo profissional, para os relacionamentos virtuais, para as praças e avenidas, para os becos onde se escondem os caídos, os excluídos, os que estão à margem da vida e da dignidade. Na Igreja, o Papa pede especial atenção aos Conselhos, onde os leigos participam junto com os pastores. Que haja verdadeira corresponsabilidade e comunhão, abertura para a missão, expressão de verdadeira conversão pastoral.

Leigos no coração do mundo

O Documento de Puebla consagrou a expressão, inspirada na Lumen Gentium, de que os leigos são homens da Igreja no coração do mundo, e homens do mundo no coração da Igreja (Pb, 786). Uma comparação com a anatomia do coração foi utilizada por dom Julio Akamine, no final da Assembleia das Igrejas, para definir a ação dos leigos: sístole e diástole são os dois movimentos que faz o coração. Na diástole, o coração relaxa e acolhe o sangue para purificá-lo e prepará-lo para irrigar o corpo. Na sístole, o coração se contrai e expulsa o sangue que vai cumprir a sua missão em todo o corpo. Assim o leigo, acolhido na Igreja, nos movimentos, nas comunidades eclesiais, no convívio com a Palavra e com a Eucaristia. Ele se alimenta, se purifica e se prepara pelos sacramentos. Em verdadeira sístole, a Igreja sai em missão. É a Igreja “em saída” que pede o Papa Francisco, sendo sal da terra e luz do mundo. O tema prioritário da Assembleia Geral da CNBB, em abril de 2015, será a missão do Leigo. Um texto de estudo já foi publicado no ano passado, com o número 107, com o título: “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz do Mundo”.

O documento 100 da CNBB, “Comunidade de Comunidades: uma nova Paróquia”, já conhecido nosso, traz também considerações preciosas entre os parágrafos 210 e seguintes, bem como proposições pastorais no capítulo 6. Peço encarecido aos párocos e seus conselhos, revigorados em nossa celebração de Cristo Rei que busquem, com coragem e criatividade, abrir novos caminhos para a atuação sempre maior dos nossos leigos. Para além de tudo o que já se realiza em nossas paróquias, sugiro aqui alguns pontos para reflexão, que sirvam para balizar as iniciativas de todos:

1. Conhecer para amar – É desejo do Santo Padre que se priorize a formação dos leigos. Existe material abundante, documentos da Igreja que devem ser conhecidos e aprofundados. Será bom incluir na programação das paróquias, ou de várias paróquias em conjunto, atividades como cursos, palestras, grupos de estudo, semanas intensivas, e outras formas de incentivo, uma vez que o tempo é curto e o interesse sempre é grande. O curso de Teologia para Leigos está sendo reformulado. É um bom instrumento, e merece ser prestigiado. Que bom se a participação crescer, e se o seu conteúdo for multiplicado nas comunidades.

2. Papel dos Conselhos – A corresponsabilidade dos leigos na organização pastoral e na administração das comunidades é um sinal de maturidade e de conversão pastoral. A maioria das paróquias e comunidades têm seus conselhos renovados em pleno funcionamento. Mas algumas ainda precisam encontrar caminhos de renovação, investir na transparência e responsabilidade compartilhada, trabalhar numa comunhão plena entre as comunidades e a matriz, entre a matriz e a diocese, com vistas à missão comum.

3. Uma Igreja “em saída” missionária – Essa definição do Papa Francisco exige clero e leigos empenhados nas atividades de evangelização. O Plano Diocesano de Pastoral, em vigor desde 2011, insiste na organização e atuação dos Conselhos Missionários em nível diocesano, regional  e paroquial. Foi a prioridade escolhida no primeiro ano de vigência do Plano, mas não deve ser esquecida à medida em que outras prioridades vão sendo elencadas. Devemos retomá-las. Uma partilha de experiências missionárias nos diversos níveis de organização diocesana enriquecerá a todos.

4. Evangelização dos Grupos profissionais – O Papa se refere especificamente a isso, e muitas dioceses têm esse ponto como prioridade. O convite para esses grupos como professores, profissionais de saúde, serviço público, empresários, comunicadores, artistas, e também os desempregados, além de favorecer a entreajuda em suas necessidades específicas, pode envolver o laicato em ambientes que favoreçam a evangelização e o comprometimento com os valores do evangelho no coração do mundo.

5. Os grupos de rua, GER e outros – mais frequentes nas ocasiões como novenas de Natal e Campanha da Fraternidade, os pequenos grupos devem ser incentivados em suas diversas formas, o ano inteiro. Uma Igreja “comunidade de comunidades” supõe formas diferenciadas de pequenos grupos onde a Palavra de Deus é conhecida e amada, e a proximidade e a amizade se juntam com as relações fraternas e evangélicas de caridade. Impossível é viver a fé cristã sem essa experiência de vida comum que acontece nos pequenos grupos.

6. Conselhos paritários e cidadania – Os Conselhos municipais que decidem sobre as Políticas Públicas são um espaço privilegiado de atuação dos nossos leigos, o que deve ser incentivado, e através desses conselhos toda a comunidade eclesial poderá se envolver e conquistar incontáveis benefícios para toda a população. Cidadania combina com fé cristã, e essa combinação inclui as campanhas de assinaturas em favor de projetos de lei propostos pela Igreja, além de um acompanhamento constante da atividade política, sem conflitos partidários, mas com interesse no bem comum.

7. Associações e movimentos – Muitas vezes os nossos leigos estão nucleados, quase diria ilhados”, em atividades exclusivas dos movimentos e associações, sem uma verdadeira consciência eclesial e participação nas atividades que são comuns a todos. Integrar, unir, construir comunhão, essa deve ser a preocupação constante dos pastores e das lideranças desses grupos. Antes de perguntar “o que pede o meu movimento?” cada grupo deveria perguntar “o que pede a Igreja ao meu movimento?”. Esse é o caminho para integrar as identidades todas numa única família, a Igreja.

8. Famílias – Campo de apostolado primordial dos leigos, neste ano especialmente deve estar no foco dos leigos e pastores. Se não bastassem as motivações provenientes do Sínodo extraordinário de outubro passado, e da preparação para o Sínodo Ordinário do ano que vem, vemos diante de nós, na realidade familiar, um “campo de feridos”, como diz o Papa, para quem a Igreja deve ser “hospital de campanha”. Não vamos nos restringir em criar associações de casais que cuidam de si mesmos, mas organizar uma ação de busca daqueles que não contam com a força do sacramento, ou por alguma razão deixaram Deus de lado, as famílias que vivem alguma situação de dificuldade ou irregularidade.

9. Redes sociais e comunicação – Gastamos muito tempo com o uso pessoal da internet, às vezes com um desperdício imenso de recursos preciosos. E não utilizamos o potencial evangelizador que têm os meios de comunicação. É o lugar próprio dos leigos, o ambiente natural dos jovens, dos adolescentes e de uma nova geração de Igreja. Este aspecto está a exigir dos pastores uma atenção especial, um trabalho organizado, um investimento de futuro.

10. Defesa da vida ameaçada e vulnerável – Os dois últimos capítulos da Evangelii Gaudium não nos deixam perder o foco da evangelização e do fim mais premente de toda a evangelização da Igreja: a vida e a salvação. “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância”, diz Jesus. (Jo 10,10). Se a missão dos leigos e do clero é uma só, o melhor de nosso esforço, de nossos recursos humanos e materiais, a nossa preocupação constante, deve estar voltada a esse urgente empenho: a vida plena. “Deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres – afirma o Papa Francisco – a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade” (EV 186). Não há de ser diferente a preocupação dos nossos leigos e pastores.

Há muitas outras indicações que poderíamos lembrar sobre a rica atuação dos leigos em comunhão com os pastores. Porém finalizo lembrando uma recomendação que cabe bem aos leigos, mas que envolve todas as nossas forças eclesiais: o Ano da Paz, decidido assim na última assembleia dos Bispos, tem início no Advento e se estende até o Natal de 2015. Não vamos perder a chance de buscar caminhos concretos para levar ao mundo Cristo, nossa Paz!

Com atitudes claras e corajosas, demo-nos as mãos, com todos os que têm boa vontade, sendo artífices da paz!

Dom João Bosco, ofm
Bispo diocesano de Osasco

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